Caco Ciocler abre 2019 como personagens, diretor e seu apaixonante papel de avô

Aos 47 anos, Caco Ciocler mudou o estilo de vida e virou galã cobiçado nas redes sociais

Quando era menino, Caco Ciocler aguardava a quinta-feira ansiosamente. Era o dia em que seu avô paterno, Samuel, chegava cedo à sua casa para visitá-lo, ocasião em que uma brincadeira se repetia. Caco se escondia e ia se esgueirando pelos móveis e cortinas até conseguir, sem ser notado, estalar um beijo na careca do avô.

O clássico ritual marcou a vida do ator e está no livro lançado por ele em novembro de 2017, “Zeide – A Travessia de um Judeu entre Nações e Gerações”, que conta de forma romanceada a história de sua família. “Meu avô Samuel não era uma pessoa com quem eu tinha grandes conversas, ele também nunca foi me assistir no teatro, pois era contra, mas foi a maior referência afetiva da minha vida”, confessa.

Nesse enredo literário é curioso o desfecho do último capítulo: Caco se torna avô e reproduz com a neta a brincadeira que fazia. “Quando escrevi, eu estava longe de me imaginar avô, mas na noite de lançamento eu soube que o meu filho Bruno seria pai. Foi muito mágico, quase uma premonição, ver a história se repetindo”, lembra o ator, emocionado.

A linda bebê Elis, filha de Bruno, de 22 anos, e de sua namorada, Juliane, é o centro das atenções de Caco, de 47, um avô jovem e assumidamente coruja. “Estou curtindo muito”, diz ele. “Mas a coisa mais bonita de ser avô é ver meu filho exercendo a paternidade do jeito dele. Eu também fui pai jovem, e o que mais gostei foi descobrir minha maneira particular de me relacionar com meu filho. Ver o Bruno nesse processo, com todo o respeito, é a coisa mais bonita. A minha relação com ele se ressignificou sem que a gente precisasse falar”, reflete.

O momento atual propicia uma viagem no tempo: Caco relembra os seus 24 anos, quando – deixou o curso de engenharia química na Politécnica (USP) para abraçar a carreira teatral.

“Nessa fase aconteceu tudo na minha vida. Eu soube que ia ser pai, e isso significava sair da casa dos meus pais, ter uma profissão, sustentar minha família”. E uma semana depois que ele soube da gravidez da Lavínia (Lorenzon, atriz e sua ex-mulher), recebeu um convite para fazer um teste na televisão. Uma realidade distante, porque ele era um estudante de teatro da Escola de Artes Dramáticas (EAD). “Foi quando começou minha carreira, e passei muitos anos aflito com isso, porque estava assumindo uma nova profissão e ela tinha que dar certo. Era uma questão de honra sustentar aquela família”.

Com o pai, o filho e a neta Elis: quatro gerações

Agora quem sai de casa com mulher e filha, com uma nova missão, é seu rebento Bruno. “Ele vai plantar café orgânico no sul de Minas. E olha a coincidência: a minha primeira novela foi “O Rei do Gado”, na mesma temática. Pela primeira vez, eu me vejo encarando a minha profissão sem tanta responsabilidade financeira, apenas experimentando a alegria. É muito bom”, desabafa.

Outro motivo de entusiasmo é a coletânea de projetos queridos que ele vem colocando em prática nesses últimos anos. Em pleno Réveillon, – ele dirigiu o road-movie “Partida”, – no Uruguai, um documentário sobre a viagem da atriz Georgette Fadel em busca de sua maior – referência, o ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica.

Ele também começou a gravar a segunda temporada da série “Unidade Básica”, do canal Universal, na qual é protagonista e atua como diretor. Como o médico Paulo, Caco vive a desafiante – rotina de uma unidade básica da periferia paulistana. Já “Simonal”, com estreia prevista para setembro, tem Caco interpretando o torturador Santana, em um longa que fala de ditadura militar, racismo e fake news – tema atualíssimo, diga-se de passagem. Está previsto para estrear em junho o filme “O Olho e a Faca”, do diretor Paulo Sacramento, e há ainda o longa “Boni Bonita”, de Daniel Barosa, que acaba de ser selecionado para o festival Slamdance, nos Estados Unidos.

Essa produção Brasil-Argentina mostra quatro momentos de Roger, um músico falido, e sua fã adolescente, Beatriz. Ele também estará no teatro este ano com a peça “Soror”, escrita por Luisa Micheletti, sua ex-namorada. Ainda no palco, dirigido por Felipe Hirsch, Caco atuou ano passado em “A Comédia Latino-Americana”, em que viveu brilhantemente o mercenário alemão Hans Staden.

Caco Ciocler na série “Unidade Básica”

Camaleão que é, Caco Ciocler se transforma a cada papel. No filme “Fica Mais Escuro Antes do Anoitecer”, de Thiago Luciano, ele vive o estranho dono de uma fábrica de gelo; já em “João, o Maestro” ele encarna o professor russo de piano que incentivou a carreira de João Carlos Martins. E tem ainda na tevê a série “Elis”, feita a partir do ótimo filme de Hugo Prata, na qual ele interpreta o pianista César Camargo Mariano, marido de Elis Regina. Detalhe: o próprio ator, que teve aulas de piano durante apenas um mês, toca de verdade nas cenas.

Disputado por diretores de cinema, teatro e tevê, Caco tem a habilidade rara de entrar na pele e na alma de um personagem e vivê-lo de forma absolutamente intensa e visceral.

Seus tipos na dramaturgia são os mais distintos e complexos – e como ele é muito produtivo, costuma emendar um trabalho no outro, sem pausas para recuperar o fôlego. “Adoro o meu ofício, porque cada personagem é uma oportunidade de enxergar o mundo a partir de um outro olhar. O meu exercício é basicamente este: ‘Quem é este cara? Como é o corpo dele? O que é importante para ele?’. Sou mais intuitivo do que pesquisador”, diz.

Com mais de 30 filmes na bagagem, 28 novelas e séries, 24 peças de teatro e onze prêmios, Caco hoje se diz aliviado por poder escolher o que quer fazer. “Já tem alguns anos que o teatro virou um lugar sagrado em termos de escolha, onde eu faço absolutamente aquilo que eu quero e trabalho com os diretores que me interessam, pesquisando linguagens, sem me preocupar com a questão financeira”.

Ator estrela o filme “Simonal”

Na TV, ele não tem esse poder de escolha, mas consegue fazer da sua limonada o drinque do momento. Foi o que aconteceu na recente novela “Segundo Sol”, da Globo, quando trans formou o personagem Edgar – nas suas palavras, “um bundão, mimado, pessoa de pouca atitude e zero carisma” – em um cara interessante e sedutor. A ponto de ter virado, mais de vinte anos depois de sua estreia, um cobiçado galã pós-moderno nas redes sociais.

Caco conta que a atriz Fabíula Nascimento, com quem fez par romântico, o ajudou nesse processo. “Ela me chamou na chincha. Logo na primeira leitura do Edgar, ela me puxou num canto e disse: ‘A minha personagem vai precisar se apaixonar pelo seu. Se você vier assim, você vai me ferrar’, conta o ator, rindo. “Ela foi muito bacana”, reconhece.

O resultado é que Caco fez seu inseguro Edgar ganhar uma carapaça de potência e charme. Para ajudar, decidiu emagrecer cinco quilos e malhar como nunca havia feito antes. Ganhou não só o personagem e o ator, mas o homem. “Eu estava pré-diabético e não sabia. A dieta e a mudança de estilo de vida me fizeram muito bem”.

À vontade no papel de galã maduro, Caco planeja novos voos. Em março e abril irá estudar interpretação na New York Film Academy, nos Estados Unidos. “E tenho um projeto incrível de uma cineasta sobre a inquisição no Brasil, quero filmar no segundo semestre”, avisa.

Assíduo na ponte aérea Rio-SP, o ator, que tem residência fixa na capital carioca, leva a sua vida entre trabalhos, encontros com a família e com os amigos. Aliás, são estes sua maior inspiração. “Tenho poucos e bons amigos, que são os meus mestres. Eles são as pessoas que me inspiram com suas escolhas de vida, com suas escolhas emocionais, afetivas e racionais. São minha base”, diz o também inspirador Caco Ciocler.

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