Drag queen mais famosa do país, Pabllo Vittar surpreende com a sua doçura, alegria e simplicidade

Encarnando a drag queen mais famosa do Brasil, com seus 8,6 milhões de seguidores, ou na pele de Phabullo, o garoto que adora ficar em casa, em Uberlândia

Quem chegou para a entrevista na sala Diamante do hotel Blue Tree Morumbi, em São Paulo, não foi o Phabullo Rodrigues da Silva, o menino de 24 anos e 1,87 m de altura que adora ficar em sua casa em Uberlândia, em Minas Gerais, de camiseta e bermuda, estirado no sofá vendo Netflix. Quem apareceu – ou melhor, irrompeu – para conversar com o time da revista 29HORAS foi a drag queen Pabllo Vittar. Maquiada, toda montada, divertida, contagiante, a personagem que o jovem maranhense Phabullo criou há três anos é uma diva que seduz quem está à sua volta e hoje tem um séquito de 8,6 milhões de seguidores no Instagram.

“O Phabullo é muito tímido, gosta mesmo de ficar em casa… Já a Pabllo, não. A minha drag é extrovertida, she is a beautiful girl… She is an angel!”, ela reforça em um inglês perfeito e com uma entonação exagerada, arrancando risos dos presentes.

Perguntada sobre como gostaria de ser chamada, se pelo artigo definido feminino ou masculino, Pabllo não tem dúvidas: “Como você quiser, mas acho que se estou aqui toda linda e arrumada é como a Pabllo, né?”.

Ela se diz no momento “mais feliz” da sua vida. “Eu tenho tido prazer de levar minha música para outros países. Fico contente de ver nativos de diversos lugares consumindo minha música e entendendo a mensagem que quero passar”. Nem sempre foi assim, ela conta.

O garoto nordestino que passou a infância no Maranhão e a adolescência no Pará, na cidade de Santa Isabel, sofreu muito bullying e preconceito, desde criança. “Não tenho mágoa, porque esse sentimento só faz mal a você. Mas passei, sim, por muita coisa. O preconceito pode não só machucar, mas destruir as pessoas. O respeito é fundamental”.

Se ela se imaginava chegar onde chegou? “Menina, você acredita que não? Quando eu comecei, o meu foco era ser conhecida no meu bairro, não era nem na cidade. Mas agora eu sou conhecida fora do meu país. Fico muito feliz”.

Em 2015, Pabllo teve seu primeiro hit: o clipe “Open Bar”, que em menos de um mês atingiu a marca de 1 milhão de visualizações no Youtube. De lá para cá, ela já cantou no Rock in Rio 2017 com Fergie; foi a primeira drag queen indicada para o Grammy Latino; deu dicas de maquiagem no Youtube da Vogue americana; superou o número de seguidores de uma das drags mais famosas do mundo, RuPaul; foi destaque da Beija-Flor no Carnaval do Rio 2018; estrelou campanhas publicitárias de marcas famosas; participou de gravações musicais com figuras como Major Lazer, Charli XCX, Sofi Tukker, Anitta e Diplo; e já ultrapassou 478 milhões de streamings no Spotify. Agora está gravando o seu terceiro álbum de estúdio, “111”, uma referência ao dia do seu aniversário, 1 de novembro.

Pabllo e o dj Diplo

“Sou de escorpião, nasci no dia de todos os santos, sou que nem paetê: quando não brilha, corta”. A artista conta que esse projeto resume o seu desejo de experimentar coisas novas, com canções em inglês e espanhol e participações de artistas
em algumas faixas.

Para além dessas experiências, há algo que está sempre presente no trabalho de Pabllo. Ela é uma fonte de inspiração para a comunidade LGBTQI+, ajudando as pessoas a se aceitarem como realmente são. “Esse moralismo de hoje me dá muito gás para poder levar minha mensagem mais longe ainda. Nunca foi fácil para a comunidade ser quem é, mas ultimamente tudo tem sido ainda mais difícil, parece que a gente vem sendo encurralada. Enquanto eu puder fazer e gritar, eu vou fazer pela comunidade, junto com as minhas amigas que também dão voz a esse processo de respeito e aceitação”.

Pabllo sente que tem um papel político: o de representar pessoas que precisam ser respeitadas. “Quando eu era pequena, eu não tinha alguém que me representasse. Hoje, a minha maior alegria é receber mensagens de gente que diz que agora pode falar com a mãe sobre a sua homossexualidade e que as coisas têm sido mais fáceis. Isso não tem preço. Nos shows que faço aqui e no exterior eu me sinto muito amada e abraçada. As pessoas vêm contar histórias e dizer que estão se aceitando e se amando”.

Apoiada desde sempre pela mãe e as duas irmãs, ela teve amigos que sofreram rejeição familiar. “Eles não podiam fre quentar os lugares que eu frequentava porque tinham medo da reação dos pais, e na minha cabeça isso era tão louco: você não poder ser você…”, reflete.

Pequeno, Phabullo já gostava de dançar e se expressar com o seu corpo. Fez balé clássico durante oito anos com a sua irmã gêmea, Phamella – “Você vê, minha mãe já estava me treinando” –, também foi para o jazz e o forró e até ganhou um concurso de axé aos treze anos. “Coisa horrível de se ver, mas tem no Youtube”, entrega a artista. Seu som não nega as origens familiares. “Minha mãe escutava muita música regional do Pará: pinduca, carimbó… Tanto que minhas canções têm muito de tecnobrega, melody… e eu AA-MOOO! Sou muito Calypso lover!”

Verônica, a matriarca, é a sua grande inspiração. “Ela me ensinou a ser agradecida às pessoas que estão ao meu lado, às coisas que a gente conquista. Eu levo isso muito ao pé da letra”, explica. “Sou muito grata a tudo o que me acontece na vida, tanto de bom quanto de ruim. Tudo é aprendizado e eu aprendo alguma coisa todos os dias nesse rolê de viagem, de shows…”

Phabullo e a sua mãe, Verônica

São muitos os compromissos, aqui e no exterior. Em abril e maio, a cantora fez a sua primeira turnê internacional, com shows no México, na Argentina e no Chile, além de espetáculos na Europa. Em junho, se apresentou em sete paradas LGBTQI+ na América do Norte: Los Angeles, Boston, Miami, Chicago, Toronto, Nova York e San Francisco.

Também tem se multiplicado em shows e aparições Brasil afora. Quem imaginaria encontrar Pabllo Vittar dormindo no aeroporto? Pois foi o que aconteceu depois de um show em Salvador, quando fez escala no aeroporto de Viracopos. “Depois de nove horas de viagem, acabei dormindo umas quatro horas no chão do aeroporto mesmo. E olha que a minha coluna nunca esteve tão boa! Eu tenho muita vontade de viver, então todo dia pra mim é como se fosse o the last”, ela diz, entre gargalhadas cênicas.

As pausas em meio a essa rotina frenética são curtidas em um lugar muito especial: a casa da artista, em Uberlândia. “Eu não escolhi Uberlândia, eu costumo dizer que Uberlândia é que me escolheu. As pessoas me perguntam por que eu não moro no Rio ou em São Paulo, mas eu amo viver em um lugar tranquilo. Na minha rua não tem barulho e lá eu sou o Phabullo, mesmo. Foi lá que tudo aconteceu”, ela diz, pensativa.

Em Uberlândia ela viu pela primeira vez o reality show “RuPaul’s Drag Race”, um marco em sua vida. “RuPaul me inspirou a me montar e a cantar em uma balada, um lugar que eu frequento até hoje e onde os donos são meus amigos”. Foi lá também que Pabllo se viu empreendedora, contratou empresários e produtores e começou a voar.

“Amo passar temporadas no Rio e em São Paulo para trabalhar porque é tudo muito uau…, mas adoro sossego, acho que por isso a minha pele é tão boa”, ela solta. Outro motivo para a pele sedosa, ela explica, é a alimentação regrada, as oito horas de sono e os exercícios. “Como tenho uma rotina louca e preciso estar bem de saúde e bem-humorada, eu me cuido muito. Não sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas pela metade, então vivo para dar o meu melhor”. Linda, livre, leve e solta: é assim que Pabllo Vittar se apresenta para o mundo.

Que sua drag é espetacular, a maioria já sabe – o visual impecável e a sensualidade dão muito o que falar, até para quem critica. Mas, talvez, poucos conheçam a doçura desse jovem artista, uma pessoa fofa, gentil, carinhosa, grata pelas experiências incríveis e difíceis que a vida lhe trouxe. Encara as adversidades com otimismo e bom humor, consciente do seu papel neste mundo.

“Não sei o que virá, mas eu quero estar fazendo o meu trabalho com um nível de evolução bafo e levando minha mensagem para todos os lugares. Eu sempre digo: se alguém duvidar que você não pode fazer alguma coisa, vai lá e faça duas vezes (ela faz um som estalado de beijo)! E tire uma foto de preferência!”

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