Fernanda Vasconcellos é a cara do novo momento da atuação brasileira

Atriz começou em novelas e agora é destaque em séries do Netflix e filmes. Foto: Mucio Ricardo

“Coisa mais bonita é você/ Assim, justinho você” escreveu Vinícius de Moraes na música “Coisa Mais Linda”, cantada por João Gilberto, em ritmo de Bossa Nova. A canção dá nome a uma nova série brasileira produzida pela Netflix. Talvez painéis em diversos lugares já tenham introduzido as suas protagonistas à cidade do Rio de Janeiro, que também é o belo pano de fundo da produção. A atriz Fernanda Vasconcellos incorpora uma delas, a Lígia Soares.

A personagem é complexa: sozinha, ela carrega dramas vividos por tantas mulheres há 60 anos, época em que se passa a história. “Não queria que Lígia simplesmente odiasse o marido, possessivo e violento, e seguisse o seu sonho de cantar sem conflitos”, conta.

A personagem enfrenta o machismo tão presente na sociedade daquele tempo e traz as dualidades desse contexto. Sofre violência doméstica e não pode seguir com a sua carreira de cantora. Mas, por diversas vezes, ama o marido que a impede de viver os seus próprios sonhos. “Ela veste uma verdadeira máscara para corresponder aos desejos dos outros e não os seus verdadeiros anseios”.

Fernanda é bastante consciente sobre a reflexão proposta pela série: “Coisa Mais Linda” não traz respostas sobre o que é ser mulher naquele tempo, faz o papel de apresentar um cenário bastante diverso e complexo”. A produção parece ter conseguido esse feito. A série repercute em análises e nas redes sociais, e é uma aposta no novo mercado audiovisual brasileiro. A atriz é parte desse movimento maior.

Fernanda Vasconcellos em “Coisa Mais Linda”

Serviços de streaming ganham grande espaço no Brasil nos últimos anos. Os trabalhos de Fernanda Vasconcellos acompanham esses passos. Ela também está no elenco de “3%”, outra série brasileira de sucesso da Netflix. “Por ser uma ficção científica, é uma experiência completamente diferente, atuamos em meio a ambientes que não existem como serão mostrados, são muitos efeitos! As gravações são totalmente diferentes do que eu já havia feito”. A terceira temporada da produção tem estreia para junho. O novo e o incerto são os caminhos escolhidos pela atriz agora. E as possibilidades para a carreira estão crescendo.

Fernanda está gravando neste mês o longa “Rua do Sobe e Desce”, dirigido por Luiz Carlos Lacerda para o canal Brasil. É mais uma vez a protagonista, com outras reflexões. “A valorização nacional é algo que me chamou a atenção neste novo trabalho”, conta, ainda sem muitos detalhes.

O caminho até aqui

A atuação sempre esteve presente na vida da atriz paulistana. Desde adolescente, ela fazia testes para modelo de comerciais e para figuração. Aos 18 anos, decidiu que queria ser atriz e faria cinema como graduação. “Meu pai disse que era incerto”, lembra, agora entre risos. Então, seguiu para o Direito e cursou até o quinto ano. “Faltava somente o estágio e o TCC para concluir”. Mas o sonho falava mais alto do que os caminhos que se apresentavam.

“Foi quando me mudei para o Rio de Janeiro e fiz testes para Malhação”, lembra. E passou. Em 2005, viveu Betina, uma das personagens principais daquele elenco. “Tive medo de sair da casa dos meus pais e morar sozinha numa cidade onde não conhecia ninguém. Já trabalhava antes, mas agora era preciso cuidar da casa e de tudo. Mas no final deu certo”, reflete sobre aquela época.

A família acompanhou sua carreira de perto e a apoiou na mudança de rumo. “Tive muita ajuda dos meus familiares. Mas existe um momento em que é necessário seguir os seus próprios sonhos, sozinha”. Fernanda é a única da família que vive profissionalmente das artes.

A atriz em “3%”, ao lado de Maria Flor e Silvio Guindane

Após interpretar durante um ano a jovem Betina, estreou em 2006 no horário nobre da TV Globo, integrando o elenco de “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos. Na trama, a atriz encarnava uma brasileira que estudava História da Arte em Amsterdã, na Holanda. “Foi meu primeiro grande papel”, lembra, emocionada. “Inclusive, nunca mais voltei para aquela cidade linda, preciso e quero muito ir”.

As mulheres em sua vida

As pausas entre os trabalhos são muito importantes para a atriz. “Não começo a imersão em uma personagem quando recebo o roteiro. Isso começa muito antes”, diz. A conexão com o próprio corpo é importante, meditações são fundamentais para a sua consciência corporal, essencial em seus trabalhos. “Também escuto música e leio para estar pronta para abrir os olhos e os ouvidos para os encontros que virão com cada atuação”.

O estímulo para a conexão com a música é também presente: “Tive aulas de canto para viver a Lígia e agora estou aprendendo a tocar violão”. Para ela, essas bagagens culturais e diversas são importantes para a carreira. “Minha professora de atuação, a Helena Varvaki, valoriza muito o aprofundamento em tudo o que pode ser bacana para os papéis, aprendo muito com ela”.

Assim como acontece em “Coisa Mais Linda”, o apoio e o trabalho de muitas mulheres são constantes para Fernanda. “Além da minha professora, que me acompanha sempre, minha empresária é mulher, tenho uma fonoaudióloga, a Leila Mendes, minha mãe é um porto seguro e as minhas referências na atuação são grandes mulheres, como Marieta Severo e Cássia Kiss”.

Fernanda Vasconcellos vive uma fase ímpar em sua carreira e, por meio de seu trabalho, acompanha transformações importantes desse momento. “Gosto de interpretar a Lígia porque a série mostra as relações entre mulheres muito diferentes e adoro esse trabalho porque ele diz respeito à vida. Em “Coisa Mais Linda” as vidas têm valor”. A atuação de Fernanda traz luz ao que realmente importa.

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