Jornalista ambiental, André Trigueiro busca um modo mais sustentável para o mundo

Jornalista que abraçou a causa do meio ambiente com rigor, André Trigueiro fala sobre a urgência de buscarmos um modelo de desenvolvimento sustentável

O nome mais importante do jornalismo ambiental do país, André Trigueiro se multiplica para dar conta de todas as suas atividades. Professor e criador do curso de jornalismo ambiental da PUC-Rio, palestrante, editor-chefe do programa “Cidades e Soluções”, comentarista do programa “Estúdio i” (ambos do GloboNews) e articulista da Folha, ele também é autor de seis livros e conferencista espírita. Premiado por suas reportagens ligadas à temática socioambiental, Trigueiro é um apaixonado pela causa, defensor da educação como forma de nos livrar do risco do colapso: “A gravidade da crise ecológica precisa ser objeto de atenção nas escolas, do contrário formaremos novas gerações de analfabetos ambientais”.

Em sua palestra na HSM você frisou a urgência de empresários e executivos investirem na sustentabilidade. O mundo corporativo evoluiu nesses últimos anos?

Sem dúvida, há avanços. Hoje as empresas buscam certificações ambientais, produzem relatórios de sustentabilidade, reduzem consumo de água e energia, dão destinação inteligente aos resíduos, entre outras ações. Há ainda mobilizações coletivas através de entidades como o Ethos e o CEBDS, assumindo publicamente compromissos em favor do meio ambiente ou cobrando ações do governo na mesma direção.

Entretanto, há ainda quem invista em campanhas publicitárias sem mudanças efetivas nos meios de produção ou, pior, induzindo deliberadamente o consumidor ao erro. O caso mais escandaloso de “maquiagem verde” foi o da Volkswagen, que burlou um sistema que aferia a emissão de poluentes de veículos movidos a diesel. A montadora foi obrigada a reconhecer a fraude e isso abalou gravemente sua imagem e a reputação. Onde há democracia, imprensa livre, Ministério Público atuante e redes sociais compartilhando informações rapidamente, erros como esse custam caro e podem ser fatais.

Qual é o papel das empresas na construção de uma sociedade sustentável?

Não há futuro para marcas que não sejam comprometida com o meio ambiente. Pesquisas de prospecção de cenários no mundo corporativo têm apontado o crescimento de uma nova categoria de consumidor, cada vez mais exigente em relação aos impactos causados pelo produto ou serviço que deseja adquirir. Como comer uma carne que tenha cheiro de floresta queimada ou digital de mão de obra escrava ou infantil?

A certificação da carne (rastreabilidade e selagem) está sendo negociada para atender as expectativas dos importadores (especialmente da Europa) e de um contingente cada vez maior de brasileiros. A expansão da consciência ambiental obriga o setor produtivo a fazer ajustes. Não fazê-los significa perder competitividade. Só permanecerão no mercado os que perceberem a inevitabilidade dessa nova cultura.

Por que não boicotamos produtos de empresas que agridem o meio ambiente, como acontece lá fora?

Esse nível de mobilização e consciência costuma acontecer em países onde o nível de informação, educação e cultura são altos. Mas não é impossível vermos isso acontecer por aqui, se as circunstâncias forem favoráveis. O agravamento da crise ambiental abre caminho para esse gênero de protesto.

A tragédia causada pela Samarco é sempre citada como “o desastre de Mariana”, minimizando a responsabilidade dessa empresa. O que podemos aprender com essa triste história?

Não foi acidente. Houve omissão e irresponsabilidade. Os erros que precederam o rompimento da barragem do Fundão foram tão escandalosos que o Ministério Público Federal acusou os responsáveis por homicídio doloso. O fato de até hoje ninguém ter sido preso, nenhuma multa ter sido paga, os que perderam suas casas ainda estarem em hotéis, e não haver previsão de quando será possível recuperar os quase 700 km da bacia do rio Doce (além do litoral capixaba na altura de Regência) configura um dos maiores vexames de nossa história. A Vale e a BHP Billiton (que estão por trás da Samarco) ficarão marcados pela tragédia e pelo que fizeram depois. É simplesmente um escândalo.

“Me pergunto quantas crises ainda precisaremos atravessar até aprendermos a usar com maior cuidado a água que temos”

20% da Amazônia já foram destruídos. Como evitar mais uma tragédia?

Um estudo recente do economista da PUC-Rio e diretor do Instituto Internacional para a Sustentabilidade, Bernardo Strassburg, revela em números o bom negócio da preservação da Amazônia e do Cerrado. Segundo ele, um hectare de floresta amazônica realiza serviços ambientais (produção de água, regulação do clima, manutenção da fertilidade do solo, prevenção da erosão, polinização das culturas) que, se convertidos em valores, somariam R$ 3.500 por ano. No Cerrado, esse valor seria de R$ 2.300 por ano.

Nos dois casos, os valores superariam com sobras o retorno do investimento no mesmo hectare de floresta desmatado para pecuária (R$ 60 a R$ 100) ou soja (R$ 500 a R$ 1.000) por ano.

Devemos estimular projetos que conciliem a exploração de madeira, minério, proteína animal e soja com a preservação desse monumental ativo que é a floresta. Do jeito que as coisas vão, nossa cultura desenvolvimentista se assemelha a uma praga de gafanhotos. O economista Ladislau Dowbor, da PUC (SP), resumiu em uma frase essa sanha de crescimento insustentável: “Crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa”.

Falando em água, as pessoas só economizam mesmo quando há risco eminente de uma crise. Esse “empurrar com a barriga” é característica da nossa cultura?

O Brasil é imenso, ocupa um território continental e isso explica o chamado “mito da abundância”, quando nos percebemos em “berço esplendido” vivendo no país que detém 12% da água doce do planeta. Ocorre que 70% de toda essa água estão concentrados na Região Norte, onde vivem apenas 7% da população. Ou seja, a escassez de água doce no Brasil é real e mensurável, e com a mudança do ciclo da chuva esse cenário tem se agravado.

Tive a honra de entrevistar um dos maiores hidrologistas do mundo, o saudoso professor Aldo Rebouças, da USP. Ele me disse que os países não são reconhecidos pela quantidade de água que têm, mas pelo uso que fazem dela. Israel é um país pequeno, tem metade de seu território situado em uma região desértica, e virou referência em dessalinização da água do mar e tecnologias de irrigação.

Me pergunto quantas crises precisaremos atravessar até aprendermos a usar com cuidado a água que temos. Lavagem de calçada com mangueira e ducha grátis em posto de gasolina (com água potável) são considerados crimes em outros países.

Fale um pouco de Niterói, onde o reúso de águas cinzas é lei.

Niterói depende de um único rio para abastecer 500 mil habitantes. A mudança do ciclo da chuva e a depredação da bacia hidrográfica inspiraram a aprovação de uma lei que tornou obrigatória a instalação nas novas edificações de hidrômetros individuais, coleta de água de chuva e de águas cinzas (água ensaboada da pia, chuveiro, tanque e máquina).

As águas coletadas são tratadas e recirculam nos condomínios como “água de reúso”, usadas para vasos sanitários, rega de jardim, lavagem de pisos etc. Usa-se, portanto, menos água potável (cada vez mais cara) para fins não nobres. O bolso agradece e a demanda de água dos mananciais se reduz drasticamente.

A Amazônia é um monumental ativo que precisa urgentemente ser protegido

Qual o futuro do Brasil na área ambiental? O que esperar da política do governo Bolsonaro para o meio ambiente?

Entre os aliados do presidente eleito encontram-se as principais lideranças da bancada ruralista, que defendem – entre outras ideias – a flexibilização da legislação ambiental e dos mecanismos de fiscalização e licenciamento. Mas boa parte do mercado internacional já sinalizou que poderia suspender a importação de grãos e de proteína animal se esses produtos determinarem o avanço do desmatamento ou o desrespeito aos direitos das comunidades indígenas.

Entendo que a expansão da fronteira agropecuária poderia acontecer sem qualquer novo desmatamento. Considerando apenas a área de pasto degradado, o Brasil já soma aproximadamente 50 milhões de hectares, o que equivale a duas vezes o Estado de São Paulo. O desenvolvimento não precisa ser sinônimo de destruição. Dá para fazer diferente. Espero que o presidente eleito siga nesta direção.

Como desenvolver um modelo de educação para sustentabilidade?

Os Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC já consideram o meio ambiente um assunto transversal que deve ser abordado pelos professores em sala de aula. Mas precisamos avançar mais.

A singularidade do Brasil perante o mundo (somos o país com maior estoque de água doce, solo fértil e biodiversidade) deveria inspirar uma abordagem estratégica sobre as vantagens do desenvolvimento sustentável. Defendo também a prática da coleta seletiva em todas as escolas, visitas guiadas a aterros sanitários, estações de tratamento de água e de esgoto, e conteúdos criativos sobre a urgência do consumo consciente.

A gravidade da crise ecológica precisa ser objeto de atenção nas escolas, do contrário formaremos novas gerações de analfabetos ambientais. O conhecimento pode nos livrar do risco do colapso.

Em São Paulo e no Rio temos exemplos de grande descaso ambiental: os rios Pinheiros e Tietê e a Baía da Guanabara. O que poderia solucionar?

Por incrível que pareça, tanto nos casos dos rios Tietê e Pinheiros, quanto na Baía de Guanabara, houve avanços na redução dos esgotos despejados. No caso do Tietê, há hoje 122 km de mancha de poluição (em 2010 essa mancha era de 243 km).

Em apenas um ano, a mancha foi reduzida em 8 km. Na Baía de Guanabara, as novas estações de tratamento de esgoto reduziram o despejo de matéria orgânica em uma escala que tornou possível mergulhar sem riscos, dependendo do dia, em algumas praias da Ilha de Paquetá. É evidente que a situação ainda é preocupante e há muito que fazer. É preciso cobrar resultados com veemência. Os avanços são lentos e tímidos. Mas estão acontecendo.

André Trigueiro é o principal jornalista ambiental do Brasil

Fale um pouco sobre o ecocídio no Brasil. E qual é o país que você admira, pelo trabalho de proteção ao meio ambiente?

Uma possível definição sobre ecocídio seria a obstinação de uma coletividade reproduzir hábitos, estilos de vida e padrões de consumo insustentáveis, mesmo sabendo que eles podem levar ao colapso da civilização.

A verdade é que não se muda cultura por decreto. Não depende apenas dos governos, mas das empresas, do terceiro setor, das lideranças sociais e religiosas etc. Ocorre que, pela primeira vez na história da humanidade, precisamos fazer as escolhas certas em um intervalo de tempo curto.

China e Alemanha impressionam pelo empenho em investir em fontes limpas e renováveis de energia. A Califórnia, nos Estados Unidos, tem varias ações que vão nessa direção do senso de urgência. Florianópolis, para dar um exemplo daqui, tornou-se a primeira cidade “lixo zero” do Brasil, ao aprovar uma lei que reduz o envio de resíduos para aterros sanitários, estimulando a reciclagem e a compostagem.

O que você faz em seu dia a dia para tornar sua vida mais sustentável e verde?

Procuro ser um consumidor consciente evitando excessos e desperdício. Discrimino plástico descartável em todas as suas resoluções, uso copo retornável de água, não uso canudo e rejeito embalagens de isopor. Sou lixo zero dentro de casa porque separo materiais para reciclagem, crio minhocas que transformam lixo orgânico em adubo e pago R$ 60 por mês para a organização Ciclo Orgânico levar o que as minhocas não dão conta de digerir (6 kg de matéria orgânica por semana).

Esse material é levado de bicicletas para compostagem e é devolvido para mim na forma de adubo no fim do mês. Tenho um carro mil cilindradas que não lavo (no máximo uma vez por ano e com água de poço) e só abasteço com etanol por ser menos impactante para o clima. Não consigo me deslocar de bicicleta no Rio por causa dos meus trajetos e do trânsito enlouquecido e ameaçador da cidade.

Você lançou em 2017 um livro sobre suicídio. O que o motivou a mergulhar nesse assunto?

Quando lancei o livro “Viver é a Melhor Opção” (Editora Correio Fraterno), com 100% dos direitos autorais para o CVV (Centro de Valorização da Vida), muita gente estranhou porque esperava mais um livro sobre sustentabilidade.

Para mim, não houve mudança de assunto. Entendo que o suicídio é o mais grave desastre ambiental que existe, que o meio ambiente começa no meio da gente, e que a defesa da vida se resolve no macro (prevenção do ecocídio) e no micro (prevenção do suicídio). Entendo que a vida é sagrada, um bem precioso e inestimável, e que vivemos um tempo em que a psicologia e a psiquiatria desenvolveram importantes recursos terapêuticos para nos ajudar em momentos de crise. Quem sofre a ponto de pensar em abandonar a existência precisa de ajuda.

O CVV disponibiliza por telefone, pela internet ou presencialmente o precioso recurso da escuta amorosa, com atenção e respeito. É um trabalho reconhecido pelo Ministério da Saúde como de utilidade pública, porque o desabafo pode, muitas vezes, evitar tragédias. São três milhões de atendimentos gratuitos por ano, pelo número 188. A organização precisa urgentemente de mais voluntários para dar conta dos chamados. Fico feliz por ajudar a divulgar esse belo serviço de apoio emocional e prevenção do suicídio.

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