Nós e o Cristo – A história de amor entre ele e os cariocas

Por: Ruy Castro

Fotos: Carlos Monteiro

 

 

A 709 metros de altura, ele vê tudo, acompanha tudo, sabe tudo.

Quando o dia nasce, já o encontra de plantão, pronto para suas responsabilidades: velar pelo Rio, zelar pelo Rio e certificar-se de que, com tudo que acontece lá em baixo, o carioca não abrirá mão de seu humor, otimismo e leveza.

Ele próprio dá o exemplo. Por mais que os cartunistas o mostrem zangado, tapando os olhos ou de braços cruzados, ele se mantém sereno, olímpico, superior – imperturbável na sua certeza de que, assim como nós, não gostaria de morar em nenhuma outra cidade do mundo.

 

Algumas pessoas não se contentam de ir visitá-lo pelos caminhos normais, de carro ou de bondinho, até o Corcovado, e postar-se aos seus pés para a clássica foto com ele ao fundo, lindão e soberano.

Às vezes, num daqueles dias perfeitos, seja de helicóptero, asa-delta ou parapente, alguns se aproximam dele – como se quisessem, literalmente, estar à sua altura.

É compreensível. É uma tentativa de ver o Rio à altura dos seus olhos – de ver o Rio como ele o vê. E ele disfarça, mas gosta – dizem até que, certa vez, piscou para uma garota num parapente.

 

 

O dia cai e, pelos pecados que já cometemos até aquele momento, ele se sente no dever de rezar por nós. E sorte nossa que seja ele a rezar, já que, parece, tem ligação direta com o pai.          Nós retribuímos tornando-o o símbolo da cidade – o que não é pouca coisa, considerando-se o concorrente que reinou por tantos séculos e que ele teve de superar – o Pão de Açúcar.

Há tempos, uma votação internacional fez dele uma das sete novas maravilhas do mundo. E a Unesco o elegeu patrimônio da Humanidade. Para você ver com quanta gente temos de dividi-lo.

 

 

Na noite de sua inauguração, 12 de outubro de 1931, um navio aportou no Rio e dele desceu um marinheiro irlandês, um devasso, velhaco, degenerado. O capelão do navio lutava para que ele se regenerasse, sem sucesso.

O marinheiro saiu na praça Mauá. Olhou para cima e, naquele exato instante, no céu absolutamente escuro, a imagem de um homem de braços abertos se iluminou. Era o Cristo, que acabara de ser aceso. O marinheiro não teve dúvida – era um milagre. Voltou para o navio e nunca mais pecou.

Ele foi o primeiro que o Cristo converteu. Faltam agora os outros seis milhões – ou seja, nós. Mas que bom que ele não está com pressa.

 

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