29HORAS em casa: O despertar da vizinhança

Solidariedade nos condomínios diante da pandemia

Solidariedade nos condomínios diante da pandemia

Ainda não acertei os ponteiros com o isolamento. Costumava despertar às 5h30. Às 6h já estava no clube. Segundas, quartas e sextas, na academia. Terças e quintas, 9km de corrida.

O café da manhã era com amigos, atletas amadores como eu (pelo menos não pegaremos essa “gripezinha”). Conversa gostosa, leve e com muita risada. 9h, redação da 29HORAS. Mal dava para perceber o dia passar.

Confinamento. Mais do que necessário. Home office. Home day. Home all. Mas velhinho acorda cedo de qualquer jeito. Agora, me levanto por volta das 7h. Coloco meu robe de chambre. Pego o notebook para ler os jornais no jardim de inverno e apreciar a vista do meu apartamento.

Silêncio. Quase consigo ouvir os passos do casal de tartaruga que mora no jardim do meu prédio. O céu está mais azul. Ninguém nas ruas. A cidade também está reclusa. Parece assustada, sem entender o que acontece. O dia nasce mais lento, tranquilo, em um ritmo que lembra uma câmera lenta. Quase um pause.

Esqueço as notícias. Começo a prestar mais atenção no despertar da vizinhança. Afinal, o que não falta por aqui são prédios.  Vejo um casal de idosos lendo jornal (impresso, coisa rara) na varanda. Cada um na sua cadeira. Mantendo a distância regulamentar. Eles não têm a menor pressa. Demoram a virar as páginas…

No edifício ao lado, a moça montou a academia no terraço. Agachamentos, pesos, abdominais e o pique no lugar. Um andar abaixo, uma senhora junta suas mãos e faz uma oração de cabeça erguida e olhos fechados. Torço para que ela peça aos céus que nos abençoe nesta difícil jornada que temos pela frente.

Tento voltar aos jornais. Não consigo. O silêncio me atrapalha. Tenho que me acostumar. Porque daqui em diante será assim. Será preciso coragem, força e colocar em prática a criatividade da vizinha atleta. E temos que estar juntos, mesmo separados, e cuidar um do outro.

Por falar em cuidar, moro em um prédio com vários idosos. Não conheço a Fernanda, do apto 182. Mas depois da mensagem que ela deixou no elevador, farei questão de me apresentar e lhe entregar um botão de rosa. Assim que tudo se acalmar, é claro.

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