A importância do transporte coletivo

Francisco Christovam, presidente da SP Urbanuss

Não há nada que irrite mais Francisco Christovam, presidente da SP Urbanuss, o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo, do que ver no noticiário matinal da tevê a ‘detonação’ do ônibus em São Paulo. “É preciso mudar o discurso dos formadores de opinião, que fazem um desserviço para a população. O ônibus se transformou, injustamente, em um vilão.

Fala-se muito em quebra de veículos, mas nós temos uma quebra a cada 14 mil quilômetros rodados. As pessoas falam que o serviço é muito ruim, mas nós recebemos uma reclamação a cada 119 mil passageiros transportados. Poucos sabem que, para suprir a insuficiência de sistemas de transporte de grande capacidade, como trens e metrôs, todos os dias, uma frota de quase 14 mil ônibus urbanos circula pela cidade, rodando aproximadamente 3,5 milhões de quilômetros, transportando cerca de 6 milhões de pessoas, que realizam 10 milhões de viagens”, diz Christovam, que fala com conhecimento de causa.

Ex-presidente da CMTC/SPTrans e um dos maiores especialistas em transporte coletivo do país, além de busólogo apaixonado, ele luta há anos pela valorização do transporte coletivo, algo básico nas cidades desenvolvidas.

Como ressalta Christovam, são muitos os desafios para melhorar o serviço de ônibus em São Paulo. “Primeiro, é preciso investir em infraestrutura. Governantes e tomadores de decisão precisam priorizar o coletivo. Não é possível circular em 4,5 mil quilômetros de ruas e avenidas e ter apenas 500 quilômetros de faixas exclusivas e 250 quilômetros de corredores de ônibus. Quando o Dória assumiu como prefeito colocou no seu plano de meta 72 km de corredores, o que não é nada, e agora o Bruno Covas, na revisão das metas, reduziu para apenas 9,4 km de corredores. É um absurdo”.

É impossível oferecer serviço de qualidade quando os ônibus não têm faixa de domínio própria e circulam por ruas esburacadas, os semáforos não conferem nenhuma prioridade aos coletivos, os passageiros andam e esperam pelos ônibus em calçadas mal cuidadas e não encontram informações sobre as linhas. Por outro lado, a nova licitação está exigindo a obrigatoriedade de veículos modernos e adequados com ar condicionado e wi-fi (hoje, 32% da frota de SP tem ar condicionado) e a criação de um sistema de monitoramento e controle da frota.

Outro motivo de atraso é que, no Brasil, o país do automóvel, o ônibus sempre foi visto como algo menor, quase um motivo de vergonha. Afinal, por que é chique e bacana andar de ônibus em Paris e Nova York e ruim em São Paulo? Christovam acha que essa cultura precisa ser mudada urgentemente. “É uma visão preconceituosa, inclusive da mídia, e que atrapalha o desenvolvimento do transporte coletivo, um grande bem em qualquer metrópole”.

482
VISUALIZAÇÕES