A mobilidade urbana no mundo pós-pandemia

É fato que nada será como antes quando a crise da Covid-19 passar. Estaremos diferentes e o mundo à nossa volta também. “Depois de um evento extremo e global como esse, muitas tendências que já estavam em curso serão impulsionadas”, explica o filósofo e historiador Leandro Karnal. Segundo ele, há três fatores que aceleram processos que já vinham despontando. São eles as guerras, as revoluções e as pandemias.

“E o importante é transformar o tempo de crise em tempo de oportunidade. O mundo conectado e com uma causa comum irá alterar, definitivamente, o nosso valor à vida e para melhor”, diz Karnal.

O isolamento devido à pandemia tem nos mostrado outros horizontes – inclusive o céu claro e limpo, sem poluentes –, e é bem provável que haja uma grande mudança no campo da mobilidade urbana. Especialistas preveem que, após vencermos a batalha do vírus, haverá uma valorização dos transportes sustentáveis e ativos, que favorecem a saúde.

O valor à vida ficou muito mais urgente e nítido com a pandemia, e é inegável o impacto poluidor dos veículos a combustão. As escolhas de mobilidade tendem a ser mais reconhecidas, até mesmo pela experiência, durante o isolamento, de vivenciar o home office, respirar um ar mais puro e perceber a inviabilidade de perder tempo e saúde em congestionamentos. Em São Paulo, a população passa, por ano, o equivalente a um mês e meio parada no trânsito.

As tendências para o mundo pós pandemia incluem modais mais sustentáveis e saudáveis

As tendências para o mundo pós-pandemia incluem modais mais sustentáveis, saudáveis e coletivos

Veja algumas tendências mundiais que tendem a favorecer a mobilidade na pós-pandemia:

1.

Devido ao home office e o teletrabalho, ela estará bem mais fluida e prazerosa. Afinal, boa parte das pessoas não precisará sair nos horários de pico. A tendência é que elas, ao se mover, também procurem modais saudáveis e sustentáveis, como a bicicleta e o pedestrianismo.

2.

Além de valorizar moradias nas regiões centrais, perto de eixos de transporte coletivo e próximas de serviços que podem ser acessados a pé, haverá a necessidade de suprir, com transporte coletivo, ciclovias, escolas, empregos e equipamentos públicos, os bairros periféricos das grandes cidades, criando oportunidades para que as pessoas se mantenham e se desenvolvam nessas regiões.

3.

A coletividade e a empatia são palavras-chave nesse momento de pandemia. E são esses valores que devem nortear os próximos passos da sociedade, segundo refletem historiadores e especialistas. O individualismo será criticado, e haverá um grande incentivo ao desenvolvimento do transporte coletivo, seja ele o metrô, o trem ou o ônibus.

4.

As pessoas se sentirão mais responsáveis pelos impactos no planeta. SUVs e carrões levando apenas uma pessoa, estarão em baixa. Caem ainda mais a ostentação e o status na mobilidade e sobem a bicicleta, a caminhada e o uso do transporte coletivo (agora sempre com uso de máscara).

5.

Haverá uma busca maior por espaços abertos, como parques, jardins e praças, evitando aglomerações e lugares fechados. Essa tendência irá impulsionar uma transformação urbanística, tornando as metrópoles mais agradáveis, com ruas fechadas para carros, calçadas largas, mais verde e ciclovias. É o conceito de “Cidades para pessoas”, difundido pelo urbanista dinamarquês Jan Ghel, que há anos constrói cidades mais humanas, cicláveis e felizes.

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