Plataforma A Moda Pela Água conecta produtores e consumidores visando a utilização recursos hídricos de forma responsável

“A água é o nosso maior bem e nossa missão é usar a moda, o design e a beleza para espalhar a urgência no uso responsável do recurso hídrico”, diz Chiara Gadaleta, explicando o surgimento da plataforma A Moda Pela Água (AMPA), idealizada por ela no início de 2019.

Trata-se de uma empreitada pioneira no Brasil: a união de empresas de um setor tradicionalmente tão egocêntrico em prol de uma mesma causa. A Moda pela Água é uma iniciativa inovadora porque, pela primeira vez, há um espaço dedicado a reunir indústria e sociedade civil para conversar, compartilhar questões, mostrar propostas e encontrar soluções.

A Moda Pela Água

Encontro de Empresas Guardiãs da Moda pela Água, com Chiara Gadaleta (à esq.) e a jornalista Andrea Vialli. Fotos: Rodolfo Trevisan/Divulgação

“Esse é um assunto que só tem condição de mudança se trabalhado em grupo e, como não podemos escolher se queremos ou não mudar – temos que mudar – a união em torno desse propósito se faz necessária”, comenta.

A plataforma funciona como um rico espaço neutro para que as empresas do setor possam conviver não através da concorrência, mas por um ponto em comum e urgente. Como ela diz, “o ‘eu’ não tem voz. O ‘nós’, tem”.

“Trabalhamos com sustentabilidade de forma egoísta e marqueteira. A necessidade de sair do umbigo empresarial e olhar para o todo é urgente. Essa forma de operar em conjunto é muito alinhada com os 17 ODS da ONU, órgão do qual sou embaixadora do Pacto Global no Brasil. O problema não pertence a uma única empresa e sim à sociedade de forma geral”, complementa Chiara.

Vicunha, Marisa, Abrapa/Sou de Algodão, Damyller, ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), Grupo Lunelli e Farm são empresas signatárias, chamadas de Empresas Guardiãs, que junto com o Movimento Ecoera, abriram suas agendas para ouvir e discutir o tema da água na indústria da moda, que sabemos consumir 80 bi de m³ de água por ano.

A equipe saiu em pesquisa de campo para entender como as empresas do setor estavam tratando o recurso hídrico – ninguém sabia dizer o quanto gastava em água. “Visitei lugares onde os rios estão mortos há muito tempo. Alguns polos de produção de jeans sofrem com escassez e outros ficam inundados pelas chuvas”, ressalta Chiara. Para ela, a empresa que abre a cadeia de valor a fim de analisar como está usando a água em seus processos se mostra engajada em fazer parte das mudanças que o mundo pede hoje, mas é necessário um olhar técnico e a vontade de abordar questões delicadas e encontrar soluções.

A Moda Pela Água

Representantes dos grupos Ecoera, Somma-Farm, Marisa, Vicunha, Damyller, Abrapa, Abit e Sou de Algodão

Uma das dificuldades que se encontra é a consistência nas boas práticas das empresas. “A sustentabilidade não é tendência, é garantia de futuro”, enfatiza. De forma coletiva e colaborativa, as empresas podem trocar know-how e ajudar a buscar alternativas para o mercado como um todo. É isso que prega o ODS 17: Parcerias em prol das metas. Assim fica mais fácil medir os impactos e estabelecer metas de redução nas emissões de gases e no uso irresponsável da água.

Chiara e o Time Ecoera podem dizer que estão no caminho certo. E não estão sozinhos: em agosto de 2019, o presidente francês Emmanuel Macron lançou no encontro do G7 o Pacto da Moda pelo Meio Ambiente, um acordo de sustentabilidade global com big players da indústria têxtil e de moda. O Fashion Pact, como é originalmente chamado, reúne marcas e grupos concorrentes, sinalizando a urgência de um movimento real de mudança. Adidas, Nike, Puma, Burberry, Chanel, Prada, Giorgio Armani, Ralph Lauren, Stella McCartney, H&M, marcas do grupo Inditex, além de Carrefour, Galeries Lafayette, entre outros, se encontraram com Macron para firmar o pacto.

Neste primeiro ano de AMPA, chamado de Ciclo 1, as empresas abriram suas agendas para discutir o uso consciente da água. O grupo reuniu-se presencialmente quase todos os meses, mesclando pautas setoriais da moda, necessidades e dificuldades de cada empresa guardiã, conversas com especialistas renomados em sustentabilidade e foco na água, além de trocarem notícias atuais e impressões sobre o tema.

Houve também avanços concretos das empresas. Um exemplo é a parceria firmada entre duas signatárias da AMPA, a varejista Marisa e a Vicunha, maior fabricante de jeans no país. A dupla lançou uma coleção experimental com tecidos que usam menos água no processo de fabricação. A economia foi em média de 85%, comparando a processos tradicionais. As peças disponíveis apenas na loja da Av. Paulista, em São Paulo, esgotaram-se em poucas horas.

A Farm e a Aqualung promoveram o mutirão de limpeza na praia de Copacabana no Dia Mundial da Limpeza. O Grupo Lunelli, por sua vez, por meio da marca Lez a Lez, lançou uma linha de camisetas assinada pela surfista Maya Gabeira. As peças foram feitas com viscose ecológica, que agride menos o meio ambiente. Grande fabricante e varejista de roupas em jeans, a Damyller lançou a linha recollect – em parceria com artistas, ela propôs a releitura de peças reutilizando restos de matéria-prima.

Manequins exibem as peças da coleção feita em conjunto por Marisa e Vicunha

A Abit, Associação Brasileira das Indústrias Têxteis, que também participa da plataforma, se engajou em apoiar eventos que unem moda e sustentabilidade. Já o Movimento Sou de Algodão, iniciativa da Abrapa (Associação Brasileira dos Plantadores de Algodão), emocionou a plateia em seu desfile-manifesto na Casa dos Criadores, assinado por diversos estilistas, onde mostrou histórias e pessoas reais da cadeia do algodão.

A Abrapa não se engajou na Moda pela Água por acaso. Para Silmara Salvati Ferraresi, gestora do movimento Sou de Algodão/Abrapa, essa bandeira se alinha com os propósitos da associação. “A iniciativa nos encoraja a pensar que podemos fazer ainda mais pelo meio ambiente e pelas futuras gerações”.

Em 2019, convidada a colaborar com o levantamento da pegada hídrica de uma calça jeans no Brasil, a Abrapa aceitou o desafio. Afinal, 92% de sua produção da pluma se dá em regime sequeiro, apenas com as águas da chuva. “Além de debater o tema água, pensamos em compartilhar com a cadeia têxtil o trabalho em prol da sustentabilidade que o setor produtivo do algodão promove com o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) em suas fazendas, há mais de uma década”, diz Silmara.

Limpeza na praia de Copacabana. Foto: Divulgação

Para ela, a plataforma tem sido um fórum importante para refletir sobre ações sustentáveis e colaborativas. “Ali, a cadeia têxtil se une para pensar em iniciativas como entregar a rastreabilidade do algodão certificado da fazenda até a peça final que o consumidor veste”.

Em março de 2020, próximo ao Dia Mundial da Água, encerra-se o Ciclo 1 da Moda Pela Água com um evento no Unibes Cultural, onde serão apresentadas várias iniciativas implementadas pelas empresas guardiãs ao longo desse ano.

E em seguida, inicia-se o Ciclo 2, onde, com mais maturidade, as empresas partem para um período de mentorias que facilitarão mudanças concretas e sustentáveis.

Novas empresas interessadas poderão se tornar guardiãs, ampliando o debate e fazendo parte da transformação. Sempre atenta a qualidade das discussões, Chiara afirma que “tratar de temas tão complexos como a redução de impactos negativos em toda a cadeia produtiva, indo até o pós-consumo, não é missão fácil e não pode ser feita de maneira superficial”.

Ela enxerga longe e já vislumbra o Ciclo 3 do AMPA para 2021/22, quando as empresas signatárias terão maturidade para atuar como mentoras de seus colaboradores e cadeia produtiva.

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