Economista Mauro Calil fala sobre a importância de conhecer o mercado para se dar bem

Palestrante, consultor e investidor há mais de 25 anos, com mestrado pela USP e certificação CEA, além de livros publicados sobre o tema, Mauro Calil respira finanças full-time. Seu grande orgulho é a clientela heterogênea que atingiu a independência financeira em pouco tempo (de dois a cinco anos) ao adotar suas orientações. A seguir, os principais conselhos do especialista:

Como ter rentabilidade nos dias de hoje, após sucessivas crises?

O que acontece hoje é que a rentabilidade despencou. O rendimento do CDI, que está muito atrelado ao da taxa Selic, rende 6,5% ao ano. Há quatro anos, você tinha 6,17% na caderneta de poupança. O CDI rende hoje menos do que a caderneta naquela época. Enquanto o governo não acertar as contas, a taxa de juros não vai subir e o poupador está perdido. A pessoa que sempre fez o dinheiro sobrar em aplicações tradicionais agora tem que correr risco. Ou ele vai para a Bolsa ou para os fundos imobiliários – este, aliás, um risco moderado.

Em 2018, a poupança registrou o melhor resultado em cinco anos: o volume guardado chegou a R$ 797,2 bilhões. Por que ainda é o investimento mais popular do Brasil?

Primeiro porque ela é muito antiga. Ela foi criada durante o Império por Dom Pedro II, em um decreto em que ele autorizava a Caixa Econômica Federal a captar as poupanças das classes menos abastadas.

O segundo motivo é que a maior parte da população brasileira não teve educação financeira, então é difícil pensar em investimentos mais sofisticados. Como você orienta seus clientes na Academia?

A gente trabalha dentro do método FAST: fazer, antever, salvar e turbinar. Primeiro, tem que fazer dinheiro. Esta é uma questão semântica que diz muito da nossa cultura. No Brasil, as pessoas “ganham” dinheiro, nos Estados Unidos, elas “fazem”: you make money. Ganhar dinheiro é passivo; já o verbo fazer dá um senso de responsabilidade, te coloca na ação.

O segundo verbo, antever, diz respeito à organização. Você não precisa esperar as contas chegarem todo mês, pode se organizar para que não pesem tanto. E aí vem o “salvar dinheiro”, diferente de economizar. Salvar é retirar dinheiro do consumo tolo, como o cafezinho depois do almoço. Tomar café por R$ 7 durante todos os dias úteis do ano significa gastar R$ 1,7 mil anualmente. E o “turbinar” é ganhar mais do que a média de mercado, que é 100% do CDI.

Com esse método, a pessoa faz todo um planejamento de vida?

É importante lembrar que o investimento é resultado do plano de vida e não o começo dele. Primeiro, vem o planejamento. Todo plano de investimento tem o curtíssimo prazo, o médio e o longo.

Para ter maior rentabilidade é preciso investir com prazos maiores?

Sim, porque é muito diferente colocar R$ 100 mil em uma única ação por um mês ou R$ 100 mil em dez ações diferentes por dez anos. No segundo caso você dilui o risco ao longo do tempo e também ao longo dos ativos.

Quais são os investimentos de mais alto risco?

Falo que o investimento de mais alto risco é o empreendedorismo, porque os números do Brasil são cruéis: dois terços das empresas morrem em até seis anos por “n” fatores. Mas também pode ser muito rentável. Empreender vai exigir de você mais do que você pode dar até o dia em que começar a te dar mais do que você sempre sonhou. Ao empreender você precisa estar preparado para sustentar esse empreendimento por prazo indeterminado. Por isso é que é importante ter um planejamento cuidadoso, inclusive com gastos pessoais.

Você comentou que o brasileiro é infantilizado em relação ao dinheiro. Por quê?

Eu tive um professor que dizia que existem dois tipos de pessoas no mercado fi nanceiro: a PJ e a PFB, a Pessoa Física Bobinha. Esta vai entrar na Bolsa na alta e sair na baixa, porque ela segue a manada e não usa a intuição. Muita gente acredita em conto de fadas. Hoje a internet está cheia de “Dr. Bumbum”, gente que promete transformar pó em barra de ouro. Então é preciso estudar. Aprender. Também é infantil achar que os problemas financeiros só serão resolvidos com mais dinheiro.

Por quê? A conta nunca fecha?

Exatamente. É como uma droga, que faz você querer mais e mais. Quem gasta muito quer cada vez mais dinheiro e não tem controle. É bom ver a vida de forma holística, organizá-la. Tem gente muito bem paga que fi cará pobre em três meses se parar de trabalhar. O consumo desenfreado é um grande problema.

O que é melhor: banco ou corretora?

O banco é o bandejão, você não passa fome, mas aquilo não é a melhor comida do mundo. Já as corretoras têm mais opções, mas também é preciso ficar atento. Por isso o conhecimento é essencial. Se você aprender minimamente, terá boa rentabilidade, pois irá testar, melhorar e ganhar confiança como um planejador. As pessoas me perguntam: onde coloco o meu dinheiro? Voltando à seara da comida, é igual a perguntar para o chef ‘o que é que eu como?’. Cada um tem suas preferências e restrições. Isso é diferente de perguntar ‘qual é o prato do dia?’

O que você acha das criptomoedas?

A criptomoeda traz consigo a tecnologia do blockchain, que não vai mais voltar para trás, mas não é mercado financeiro aqui. No Japão, na Coreia do Sul, em alguns estados norte-americanos, na Alemanha e em alguns cantões da Suíça ela é. O grande risco é que não tem legislação ainda, mas há empresas sérias que cumprem normas como se fossem bancos e corretoras, porque todo mundo sabe que um dia a legislação vai chegar.

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