Autora de “Quando me descobri negra”, Bianca Santana busca construir sua identidade e a de tantas brasileiras

 

Não é apenas sobre aprender técnicas e viver profissionalmente da escrita, é sobre se expressar e colocar uma dose de afeto e observação naquilo que narra. A definição é de Bianca Santana, jornalista, professora e pesquisadora na área de Educação. Descobriu-se escritora depois mesmo de lançar o seu primeiro livro “Quando me descobri negra”, pela editora Sesi-SP, em 2015. Até então, no seu inconsciente, escritores eram homens brancos de origens ricas. Diferente de quem ela é.

Bianca inicia uma série de relatos sobre experiências pessoais ou ouvidas de outras mulheres e homens negros no livro. “Tenho 30 anos, mas sou negra há dez. Antes, era morena”, escreve. Ela explora o racismo tão estrutural em nossa sociedade, que ainda teima em querer embranquecer o país, distanciando a cultura e origem africana de seus descendentes. “Eu sempre soube que não era branca, mas aquilo não era uma questão para mim, eu misturava com a classe social”.

A escritora lembra que teve um de seus primeiros insights sobre a sua identidade quando começou a dar aula para jovens e adultos. “O coordenador me disse que era bacana ter uma professora como os alunos e nunca tinha dito aquilo para meu colega, um homem branco”.

Diante dessas percepções, Bianca se aprofundou na escrita de si e vieram outros livros. “Inovação ancestral de mulheres negras – Táticas e políticas do cotidiano” e “Vozes insurgentes de mulheres negras: do século XVIII à primeira década do século XXI” são os mais recentes. O último teve lançamento na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano.

A afirmação sobre ser negra é parte de seu trabalho, porque é a base de sua existência. “Homens brancos costumam se afirmar como pessoas ou seres humanos, em volta deles existe a noção de universalidade. Mulheres brancas se apresentam como mulheres, e mulheres negras são atravessadas pelo gênero e pela raça”.

Trabalhar pela equidade, escuta do outro e pelo respeito às diferenças é o caminho escolhido por Bianca para substituir narrativas excludentes na História e no cotidiano. “A preservação da memória é a militância que enxergo para o futuro”, define a autora, que atualmente escreve a biografia da filósofa Sueli Carneiro, uma de suas referências na luta contra o racismo.

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