Bicicletas e patinetes reafirmam a importância de modais sustentáveis em São Paulo

Ciclistas, patinetistas e o bike táxi Bikxi na ciclovia Faria Lima, a mais movimentada de São Paulo

Um harmonioso e silencioso congestionamento de ciclistas e patinetistas. É assim que fica, por alguns instantes, a ciclovia da avenida Faria Lima no início da manhã e no final da tarde. O principal corredor cicloviário de São Paulo, que liga o Parque Villa-Lobos, na zona oeste, ao bairro da Vila Nova Conceição, na zona sul, chega a ter um pouco de fila nos horários de pico. Mas essa fila anda… Não se compara à situação da avenida coalhada de carros, uma das vias mais lentas da cidade.

São cerca de nove mil ciclistas que passam pela ciclovia por dia, um aumento de 73% em relação a 2017. De acordo com dados da CET, em 2017 mais de 1 milhão e 600 mil viagens foram feitas ali, contra 930 mil em 2017. O crescente movimento comprova a ideia de que basta oferecer infraestrutura que os ciclistas aparecem. Como explica a urbanista Irene Quintáns, o ideal é fazer o sistema cicloviário por oferta, não por demanda. “Você não coloca ciclovia porque ali tem muito ciclista, você coloca para que tenha muito ciclista. Isso é fundamental para formar público”, ensina.

A cena na Faria Lima é bonita e traz um alento para quem busca uma cidade de São Paulo mais humana, mais gentil, mais ligeira e menos poluída. A cada ano aumentam os congestionamentos e as horas perdidas na capital paulista. Estima-se que o paulistano passe, em média, um mês e meio parado no trânsito por ano.

Sexta metrópole mais poluída do mundo, ela está no ranking por responsabilidade quase integral das emissões dos carros. “Em São Paulo, eles causam 92% da poluição, ao contrário de outras cidades afetadas pela indústria”, diz Adalgiza Fornaro, professora de Climatologia da USP.

Por isso, e por uma infinidade de razões, é muito bem-vindo o burburinho colorido de bicicletas e patinetes com pessoas dos mais variados perfis e idades. Só nos primeiros cem dias de 2019, o Bike Itaú, sistema de bicicletas compartilhadas operado pela Tembici e patrocinado pelo Itaú Unibanco, atingiu o recorde de quatro milhões de viagens em suas operações brasileiras e latinoamericanas.

O aumento exponencial de bicicletas compartilhadas e patinetes elétricas aconteceu em São Paulo de 2018 para cá

Para Guilherme Monacelli Cipullo, das relações institucionais do banco, a micromobilidade é a grande tendência deste e dos próximos anos. “Ela envolve os trajetos curtos realizados para as ações de seu cotidiano, como ir à padaria, à farmácia, ao almoço no restaurante.

Eles fazem parte de um universo de 46,7% de deslocamentos que não abrangem o ir e vir da casa para o trabalho e vice-versa, de acordo com a mais recente Pesquisa Mobilidade da População Urbana, da CNT (Confederação Nacional do Transporte). A tecnologia é central nesse movimento, ajudando as pessoas a decidir como vão se locomover”.

Segundo Marcel Bely, gerente de relações públicas da Yellow, que recentemente se fundiu com a mexicana Grin, de patinetes elétricas, as duas empresas estão comprometidas em atender às necessidades de mobilidade em toda a América Latina. “É onde a alta densidade populacional e a infraestrutura de transporte insuficiente criam uma demanda única por soluções de micromobilidade”, diz Bely.

Segurança é essencial

Especialistas alertam, porém, para a necessidade de uma regulamentação desses novos modais. Bikes e patinetes circulam também pelas calçadas, colocando em risco a segurança de pedestres. A Prefeitura de São Paulo montou um grupo de trabalho para discutir as regras e pretende reduzir a velocidade nas ciclovias. Pela lei brasileira, patinetes não podem passar de 20 km/h nesses locais. Segundo Marcel Bely, recentemente a Grin e a Yellow anunciaram uma ação educativa com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade no Largo da Batata.

Em abril, foi noticiado que um grupo de adolescentes tem usado patinetes elétricas para realizar roubos na região. “Também estamos em constante diálogo com a Secretaria de Assistência Social e Conselho Tutelar para, de forma conjunta, buscar as melhores soluções para desenvolver esses menores e, assim, aumentar a segurança da operação nessa área”.

Primeira e última milha

Atualmente, a Yellow e Grin juntas contam com mais de 135 mil patinetes e bikes em sete países, já realizaram 2,7 milhões de viagens em apenas seis meses e empregam 1,1 mil funcionários. “O objetivo da Yellow é revolucionar o transporte por meio da disponibilização de alternativas para as chamadas ‘primeira e última milha’ das viagens urbanas”, diz o executivo.

Em São Paulo, onde a ocupação dos carros é baixíssima (a média é 1,4 ocupante por veículo), dois terços das viagens de automóvel são de menos de 5 km e, portanto, muitas vezes substituíveis por formas mais inteligentes e sustentáveis de transporte. Negócios têm surgido dessa necessidade. Um deles é o Bikxi, primeiro táxi de bicicleta da cidade, nascido há quase dois anos. O economista Danilo Lamy andava estressado com o trânsito e decidiu investir em uma bike elétrica.

Aplicativos como o Grin, possibilitaram grandes avanços na mobilidade urbana

A guinada positiva motivou-o a montar a empresa para oferecer o serviço de táxi, estendendo esse bem-estar às pessoas. Elétricas, as bikes duplas são dirigidas por profissionais treinados e atendem apenas em ciclovias e ciclofaixas. O passageiro pode pedalar com o bikxer ou apenas relaxar e curtir o passeio.

Em uma roda só

CEO da Eletricz, que comercializa monociclos elétricos, Marcio Canzian calcula que foram vendidas cerca de 1500 unidades nos últimos doze meses em todo o Brasil. Diferentemente das bikes e patinetes, o monociclo elétrico requer um treinamento específico.

Marcio frisa que em até duas horas é possível aprender os comandos básicos, as curvas e as dicas para se manter em pé no equipamento. “E a vantagem é que eles são muito versáteis. Pequenos e relativamente leves, têm autonomia de bateria que pode chegar a 140 km com uma só carga e transpõem todo tipo de terreno, mesmo as subidas mais íngremes, sem qualquer esforço físico”, explica Canzian.

Os monociclos contam com um giroscópio eletrônico que deixa o centro gravitacional tracionado na posição horizontal e um acelerômetro que reconhece o movimento pendular do corpo, fazendo com que o veículo se locomova até atingir a velocidade desejada.

O anjo da bicicleta

Quem nunca andou de bicicleta ou fica inseguro para pedalar na cidade pode ter a ajuda do Bike Anjo, uma rede que surgiu há nove anos em São Paulo com o objetivo de incluir a bicicleta na vida das pessoas. Hoje o projeto está espalhado em 741 cidades de 34 países e atua com 7.267 voluntários, que já atenderam 22 mil pessoas, sempre gratuitamente.

Para pedir o auxílio de um Bike Anjo basta se inscrever no site bikeanjo.org. O passo seguinte é encontrar o instrutor, que irá ajudar nesse primeiro trajeto da sua casa até o trabalho, por exemplo. “O importante é ajudar as pessoas a andar de bicicleta e traçar rotas e itinerários mais seguros. Assim a gente contribui para tornar possível o uso da bike no dia a dia”, explica Marina Castilho, que atua na rede.

Avenida Paulista, cartão postal da cidade

Entre as ações que o grupo faz nas várias cidades em que atua, uma de destaque é a campanha De Bike ao Trabalho, que acontece no dia 10 de maio. Neste ano a campanha faz um chamado para mapear as Empresas Amigas da Bike: por meio de um formulário simples, no site da campanha, a empresa submete seu perfil como apoiadora e incentivadora dessa prática entre seus colaboradores.

Vagas com antecedência

Em 2011, o catarinense Daniel Kohntopp veio trabalhar em São Paulo e estranhou a imobilidade do trânsito. Como sempre andou de bicicleta em Joinville, passou a usar sua magrela, mas ficava inseguro ao estacioná-la nas ruas. Há um ano, idealizou a startup Bike & Park, que ele acaba de lançar, com um app que liga o ciclista a uma rede de estacionamentos com bicicletários automatizados. O ciclista pode reservar a sua vaga com antecedência e tem seguro incluso durante o uso, com o pagamento realizado pelo próprio aplicativo. “Também estamos montando planos para empresas que desejam colocar o serviço como benefício para seus colaboradores”, explica Daniel.

Outro aplicativo criado para facilitar a vida do ciclista nas cidades é o UseBike, que existe há três anos. A plataforma colaborativa mapeia pontos de aluguéis, prestadores de serviço, oficinas, bicicletários, paraciclos e rotas, além de locais para banho e outros estabelecimentos bike friendly no Brasil – com uma tecnologia que é acessível no mundo todo. “Hoje temos mais de trinta mil pontos cadastrados para tornar o pedal mais seguro e prazeroso”, diz Thiago Turbian, um dos quatro fundadores da startup.

Movidos a arroz e feijão

Segundo uma grande pesquisa sobre cidades inteligentes feita pela empresa Hello para a Tupinambá, todas as ações que priorizam o pedestre e o ciclista – como o fechamento de importantes ruas para lazer de pedestres, a criação de ciclovias e ciclofaixas e a diminuição de espaço para carros – são vistas com bons olhos pela maior parte das pessoas. “Constatamos que 75% dos entrevistados aplaudem essas iniciativas”, diz Davi Bertoncello, CEO do Hello Group. “A pé também é transporte”, lembra Silvia Stuchi Cruz, fundadora da ONG Corrida Amiga, que trabalha com a mobilidade ativa.

Sua missão é inspirar as pessoas a trocar o carro pelo tênis. “O transporte a pé gera benefícios para a saúde e protege o meio ambiente. Você não polui, porque é movida a arroz e feijão”, diz a andarilha Silvia, que faz todos os trajetos pela capital paulista – todos, sem exceção – caminhando ou correndo.

Fundamentada no conceito de microrrevoluções urbanas – pequenas atitudes dos cidadãos que, somadas, podem solucionar problemas urbanos sem a intervenção do poder público –, a Corrida Amiga nasceu em 2014, quando Silvia, retornando ao Brasil após residir um ano na Inglaterra, sentiu a necessidade não apenas de utilizar os pés como meio de locomoção, mas também de inspirar este meio de transporte como estilo de vida. Hoje a organização se espalhou pelo país, mobilizando mais de mil pessoas em quinze cidades. Em 2015, consolidou a iniciativa também na Austrália.

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