Bon Vivant: A alegria de sair de casa (e dos apps)

O discernimento na hora de usar os apps é fundamental para não perder de vista o prazer de jantar fora, ir ao cinema ou até mesmo tomar um sorvete na rua

Quero alertar a todos os bon vivants sobre um fenômeno relativamente novo, mas que de dois anos para cá vem se tornando assustador. Me segurei até agora porque achei que podia ser considerado um tipo de preconceito ou de radicalismo, sei lá, afinal de contas tenho uma clara tendência saudosista quando o assunto é prazeres urbanos, ainda mais quando a cidade em questão é São Paulo, com tudo o que ela tem a oferecer.

Eu me refiro aos serviços de entrega, mas não apenas aos deliveries de restaurantes, mas também aos de supermercados, sorvetes e tantos outros que nos oferecem até os últimos lançamentos do cinema sem sair de casa.

Os apps querem, e pelo jeito estão conseguindo, nos tirar o prazer de ir jantar fora ou de ir ao cinema e até mesmo de fazer umas comprinhas no supermercado… Socorro!!! Sou a favor de todos os serviços, mas se não houver discernimento, vamos nos enclausurar para poder ficar mais tempo ainda pendurados no celular ou para conseguir ver mais um capítulo da série do momento… No final das contas, um aplicativo leva a outro.

Vamos deixar esse tipo de recurso para dias de chuva ou para situações específicas, quando não podemos manter o programa original que é sair, ver gente, encontrar amigos, ver o que tem de novo na rua ou simplesmente socializar com a nossa cidade.

No Carrefour ao lado da minha casa, fiquei pasmo ao ver uma funcionária do Rappi fotografando uma fatia de salame para perguntar ao seu cliente se a espessura estava boa. Me perguntei se é possível viver sem avaliar e escolher nós mesmos as frutas, legumes e até as flores que irão entrar em casa. Só de pensar que alguém que nunca vi vai fazer essas escolhas por mim, já me diz que algo está errado. A não ser em caso de emergência, claro.

Por isso, acho que todos nós que gostamos de frequentar bares, restaurantes, cinemas e livrarias temos que levantar a bandeira de uso consciente desse exército de apps. Mesmo que você faça sua pipoca e assista a um filme na TV, vamos combinar que não se compara com uma saída com direito a cinema e pipoca original. Assim como a gentileza do garçom ou a crocância do seu sanduíche não conseguem chegar à sua casa, por mais eficiente que seja o seu aplicativo…

Me lembra um pouco a história da caminhada no parque e da esteira na sala… resolve o fisiológico, mas não abastece o coração. Temos que resistir à quantidade de apps que invadiram o nosso dia a dia e que tentam a todo momento nos convencer de que eles podem fazer “tudo” o que estamos acostumados e gostamos de fazer nós mesmos…

Eu sei que tudo é motivo para cair no conforto e ficar em casa, mas tente, por exemplo, encarar o lado bom do frio deste inverno e convide o seu amor ou os seus amigos a ir comer uma das tantas boas sopas de São Paulo. Vai ser alegria, na certa.

Até, bom passeio.

Alguns restaurantes que servem sopas e valem a pena: Spot (pera com alho poró, banana ao curry), La Casserole (sopa de cebola), Le Jazz (sopa de cebola), Quinta de Santa Maria (caldo verde), Rancho Português (caldo verde).

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