Casas e apartamentos podem ser adaptados para idosos e novos condomínios surgem especialmente para essa população

Projeto do condomínio Vintage Senior Residence, da Cyrela, em Porto Alegre

Quando um jovem casal ou uma família recém-formada compra um imóvel, é comum que não pense que poderá passar décadas por ali. Os novos proprietários tampouco se imaginam idosos naquele espaço. A casa é motivo de felicidade imediata e um plano para o futuro recente. Mas podemos passar muitos anos dentro de uma mesma residência.

Ao nascer, em 2019, a expectativa de vida das mulheres já é de 80 anos e a dos homens de 73, segundo o IBGE. O ambiente precisa ser funcional para o envelhecer e, quando esse espaço não atende necessidades antes inimagináveis e não pode mais ser adaptado, opções de instituições de longa permanências para idosos (ILPIs) e condomínios surgem como alternativas.

Camilla Vilela é gerontóloga e fundou a empresa 60 + Consultoria, que presta serviços de adaptação e planejamento de imóveis para idosos. “O primeiro passo é entender a dinâmica dessas pessoas, depois vemos como essa rotina se aplica no espaço e como o lugar está configurado”. Ao lado do arquiteto, ela avalia as adequações que serão necessárias a partir dessa análise. “Na maioria dos casos, reformas de pequeno porte já são suficientes”, explica.

Entre algumas das adaptações possíveis, os armários precisam ficar na altura das pessoas, o piso não pode ser muito liso, a preferência é para cadeiras com braços, geladeiras devem ser novas e com descongelamento mais fácil, barras nos banheiros são necessárias para evitar quedas e as saboneteiras devem ser colocadas em lugares de fácil acesso.

As pessoas mais velhas têm uma relação especial com suas casas, pelas várias décadas passadas ali. Além do conforto e da segurança, é importante garantir que objetos como porta-retratos e livros permaneçam nesses espaços, porque produzem memória. Quem lembra desse importante ponto é a arquiteta e professora do curso de Gerontologia da USP, Maria Luísa Bestetti. “Quando os idosos são ativos é sempre melhor adaptar a casa ou transferir esse universo pessoal para um novo imóvel. A mudança para uma instituição de longa permanência deve ser feita apenas para casos bem específicos”.

A ideia de morar com pessoas da mesma faixa etária, mas sem abrir mão do conforto, da independência e da gestão de sua própria vida, tem levado idosos do mundo todo a buscar – e muitas vezes a projetar – empreendimentos especiais. Este foi o caso do Convivir, condomínio criado na Espanha por um grupo de pessoas de profissões diversas, com idade entre 46 e 90 anos. Dirigido por uma cooperativa, o projeto, uma espécie de cohousing sênior, permite otimização de custos e um dia a dia movimentado, com atividades como teatro, aulas de dança, palestras e eventos.

No Brasil, projetos desse tipo ainda são raros. O pioneiro nesse conceito é a Vila ConViver, em Campinas, formada por 52 associados acima de 50 anos. “Hoje estamos diante de um sonho possível: a opção de escolher onde, como e com quem desejamos envelhecer. Nosso diferencial é a criação de um rico ambiente social, o estímulo ao acolhimento e à solidariedade mútua”, diz o professor Bento da Costa Carvalho Junior, um dos moradores e coordenadores da Vila ConViver. Incorporadoras já começam a ficar de olho nesse nicho, bastante promissor. O empreendimento Vintage Senior Residence, da Cyrela, em Porto Alegre, foi desenhado para atender clientes com mais de 60 anos.

O projeto conta com piso táctil e antiderrapante, elevador com capacidade para maca, câmeras de monitoramento, além de espaço para aulas de yoga, ginástica e atividades culturais. Os 120 apartamentos têm banheiros acessíveis, acionamento rápido de emergência e até enfermeiros de plantão, inclusos no valor do condomínio. O preço do imóvel com 42 metros quadrados começou a ser vendido em 2018 por R$ 550 mil.

Asilo deveria ser coisa do passado

Terça da Serra, em Jaguariúna

Maria Luísa afirma que a maioria das instituições de idosos no país ainda carrega estruturas e serviços como os dos asilos de antigamente, onde as pessoas vivem em uma realidade hospitalar. “O morador é até chamado de paciente e interno pelos funcionários. Isso não é positivo, estamos vivendo uma fase de transição das terminologias também”, ela afirma.

Para superar os corredores parecidos com os de hospitais e os ambientes pouco estimulantes, surgem opções alinhadas com o que é envelhecer nos dias de hoje. Em um espaço agradável, a instituição Terça da Serra, em Jaguariúna (SP), criada pela geriatra Joyce Caseiro, cobra a partir de R$ 4 mil reais mensais por cada hóspede. “Respeitamos a individualidade de cada hóspede, mantemos atividades de interação em grupo e estimulamos a proximidade com os familiares”, diz Joyce.

A professora Maria Luísa lembra que é preciso avaliar a quantidade de funcionários, a acessibilidade do espaço e, principalmente, se o envelhecimento está acontecendo em uma comunidade ou coletivo familiar e desejado. “Para que os idosos não estejam isolados socialmente, vizinhos e amigos são muito importantes, tanto ou mais do que barras de apoio”, enfatiza. O mais relevante, então, é realmente não envelhecer sozinho.

Conforto e equipes multidisciplinares

Com estrutura de hotel, as novas casas de repouso oferecem atividades e enfermagem 24h por dia:

Residencial Santa Cruz, em São Paulo

Tem serviços de hotelaria e salão de beleza; atividades físicas no solo e na piscina; acompanhamento nutricional, psicoterapia e bosque para caminhadas. A partir de R$ 8 mil mensais.

Conficare, em São Paulo

Os quartos compartilhados podem ser duplos, triplos ou quádruplos e o valor começa em R$ 5 mil mensais. Para os individuais, idosos com grau leve de dependência pagam a partir de R$ 8 mil. Salas de TV e leitura e atividades em grupo são alguns dos serviços oferecidos.

Villa Sofia, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro

A vista e a arquitetura são privilegiadas pelas belezas naturais. Oferece consulta médica semanal, cardápios elaborados por nutricionistas, enfermeiros de plantão 24 horas por dia e ambientes para ginástica ao ar livre. Os preços para quartos individuais começam em R$ 5 mil.

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