Criolo: amor à mãe, crítica à política do Brasil e esperança nos jovens

Em outubro, Criolo entrou duas vezes na Escola Estadual Professora Esther Garcia, no bairro do Grajaú, na periferia da zona sul paulistana. Ele foi votar na mesma sala onde fez o terceiro ano do ensino médio ao lado da mãe, dona Maria Vilani.

Quando ele tinha quatorze anos e a mãe 39, os dois compartilharam a mesma classe. A ideia de ter a progenitora como colega de sala foi do próprio Criolo, que sempre admirou a sede de conhecimento de dona Vilani, uma mulher que lutou para estudar desde menina. Nascida em Fortaleza, sem ter chance de frequentar escola, ela aprendeu a ler praticamente sozinha: caçava palavras em pedaços de jornais que serviam de embrulho para os mantimentos. Depois passou pelo Mobral, fez o ginásio e aí teve a alegria de se formar no ensino médio ao lado de Kleber, o segundo filho de sua prole de cinco.

“Ela foi me matricular no colegial e eu perguntei se ela não queria estudar. A dona Raimunda, que fazia tudo ali na escola, disse que ia falar com a diretora. Minha mãe juntou todos os papéis das matérias que tinha estudado  e foi aceita. Nós fizemos o colegial juntos por três anos na mesma classe. As coincidências da vida”, relembra Criolo, emocionado, contando que o retorno à sala onde os dois estudaram, na hora do voto, foi uma experiência forte.

Durante a entrevista que aconteceu na Ocupação Nove de Julho, na Bela Vista, dona Vilani foi citada pelo filho mais do que uma dezena de vezes. “Tudo o que eu fiz dos onze anos para cá é só um complemento do que a minha mãe faz. Eu sou uma folha de uma árvore da dona Maria Vilani. Ali a coisa é séria. Muito disciplinada, muito obstinada, muito estudiosa. Minha mãe é meu espelho maior, meu céu, meu chão. Ela é tudo. Quando relembro a história da minha mãe, eu tenho esperança no ser humano”, diz o músico, que acaba de lançar o clipe “Boca de Lobo”. Escrita com Nave e Daniel Ganjaman, parceiros de longa
data, a música (alguns versos seguem destacados abaixo) é uma retrospectiva ácida e aguda da política brasileira recente e denuncia as surreais consequências do abuso de poder no nosso país.

 

O clipe dirigido por Denis Cisma, com direção criativa de Pedro Inoue, é recheado de referências. No vídeo, muito bem feito, aparecem metáforas de episódios como os incêndios do Museu Nacional, no Rio, e do prédio do Largo do Paissandu, no centro de São Paulo. Também o desastre ambiental causado pela Samarco, em Mariana, a máfia da merenda, a “Farra dos Guardanapos”, episódio em um hotel de luxo em Paris, comandado pelo ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, entre outros escândalos recorrentes no país, uma caixa de (tristes) recordações de tudo o que vivenciamos nos últimos anos.

“Tentamos fazer um trabalho visual com essa canção”, diz Criolo. Para ele, a arte, a criação, tem um tempo próprio que é dela. “Eu sinto que a canção não pode ser tratada como um jardim onde eu vou lá podar, moldar e deixar do jeito que tem que ser porque alguém vai ver. No final das contas, a arte dá um jeito de se mostrar e eu respeito esse tempo, essa força”.

Como diz o compositor e cantor, “a arte é uma força que arranca todas as paredes”. E Criolo vem derrubando barreiras há mais de vinte anos, um jeito de expressar a dor que ele diz sentir desde que se entende por gente: “Ai, ai, ai, eu comecei a escrever com onze anos, aos treze eu cantei e aí eu não parei mais, eu não parei mais. A música é minha vida. E eu costumo dizer que o dia que eu tenho show é o dia que eu não trabalho, é o dia de uma celebração maior da luta de uma existência”.

Sua fala é recheada de pausas, com repetições, gestos pungentes, ritmo. Criolo está inteiro na conversa – profundidade é uma palavra que o define. Mas há outras: doçura, família, esperança, verdade. E inconformismo. Sua alma sofre com a injustiça do seu, do nosso país. “Eu cresci num ambiente em que falavam que a gente ia morrer de morte matada ou de fome, não ia passar dos sete anos por subnutrição, dos treze por violência urbana… O medo é ferramenta eficaz de manipulação. Junte a isso o sucateamento brutal das escolas públicas, das questões da humanidade, e a gente tem uma situação muito sofrida. Enquanto houver desigualdade social, toda paz é uma mentira, porque a desigualdade social vem oferecer tudo aquilo que a alma não precisa, tudo que uma criança não precisa”.

A conversa com Criolo nunca é superficial. Ele não tem respostas prontas; ao contrário, tem questões. “Por que, meu Deus, que plano de saúde tem que pagar, por quê, por quê? Temos dinheiro, por que as pessoas têm que comer comida no lixo se a gente exporta comida? Por quê? Se somos todos iguais, como falam, então por que somos tratados como diferentes? Explica para mim! Por que tudo se resume a dinheiro? Por que diminuir a cada ano o salário do professor? Ele só diminui, diminui, diminui. Por que as pessoas não podem sonhar novamente em ser professores? Um presidente, um governador, um prefeito. Por que tanta gente para dizer como é que tem que ser a minha vida?

A educação é um valor importantíssimo, reflete Criolo. Dona Vilani que o diga. Extremamente atuante no bairro do Grajaú, onde Criolo passou a infância e a juventude, ela se tornou professora, fez faculdade de filosofia, extensão em história e psicologia e pósgraduação em línguas e semiótica. Autora de quatro livros, tem orgulho de um café filosófico que fundou no bairro, além de rodas de poesia. “Ela nunca parou. E fala: ‘isso aqui, meu filho, é pote que não enche se você tiver sede’. Está com 67 anos e é provocadora, inquieta, corajosa, continua com a sua luta pelo saber”, diz Criolo, com 43 anos igualmente inquietos. E o seu Cleon Gomes? “Ah”, suspira Criolo, “o meu pai é um ser maravilhoso, eu tenho o sorriso dele”. Um sorriso largo e lindo que se abre quando ele fala de coisas como a família e o seu trabalho com a música. “Quando se aproxima o momento de dividir com o mundo um disco, esse é um momento de grande felicidade, porque eu me lembro que estou vivo, me lembro que somos todos capazes”.

Kleber Cavalcante Gomes, o cara que foi um dos fundadores da Rinha de MCs, disputa de rappers no improviso, e se tornou influente no universo hip-hop durante anos –na época era conhecido como Criolo Doido –, fez álbuns marcantes. “Nó na Orelha” (2011), “Convoque seu Buda” (2014) e “Espiral de Ilusão” (2017), só para citar alguns. Aliás, de Buda e de profeta ele tem um tanto. Especialmente quando discorre sobre a esperança que tem nos jovens do Brasil. “Tenho visto em cada canto do país tanta energia positiva, que isso tem me alimentado a alma. São jovens se reunindo e apresentando soluções magníficas de transformação social. E tudo dentro de uma disciplina muito grande. Eu não vou perder nunca a esperança na nossa juventude. Nunca, nunca, nunca. Nun-ca. Aliás, são eles que, com suas lindas ações e lutas por igualdade social, em todas as camadas do que essa luta sugere, vêm enchendo o coração da gente de esperança. Existem pessoas fazendo coisas especiais por todo o Brasil.”

Criolo aponta o lugar onde estamos conversando: uma sala com confortáveis sofás da Ocupação Nove de Julho, espaço super bem organizado e harmônico ocupado por 121 famílias. “Comecei a frequentar porque um grupo daqui colaborou na construção do “Boca de Lobo”, e eu vim fazer uma apresentação de agradecimento para eles. E marquei a entrevista aqui porque tinha certeza de que vocês seriam bem acolhidos. Meu desejo foi dividir esperança, mostrar algo bom nesse momento tenso do país. Um lugar que estava abandonado, cheio de lixo, esquecido e que foi ressignificado, com famílias e pessoas maravilhosas, que buscam viver com dignidade e cidadania”.

Ele se diz fruto também de uma comunidade de pessoas maravilhosas, da abençoada árvore do seu Cleon e dona Vilani, mais os quatro irmãos – dois deles professores, ressalta. “Recebi carinho de poucas pessoas, mas foi intenso. E muita disciplina”.

A rotina de vida na favela incluía (como inclui até hoje) acordar às cinco da manhã para pegar o busão e dormir bem tarde, depois de cuidar da casa, do trabalho, do estudo. Isso se impregnou de tal forma na pele e no espírito de Criolo que ele continua madrugador. Mesmo que durma muito tarde, salta da cama às cinco, seis da manhã. E os respiros, o que gosta de fazer nos dias de folga? Criolo faz uma longa pausa: “Infelizmente, a nossa família não teve a cultura do passeio. Até os quinze anos, feriado para mim era o dia em que meu pai, metalúrgico, fazia hora extra. E ele dava graças a Deus porque ganhava um pouco a mais”.

Segundo Criolo, essas coisas, esses registros,ficam marcados para o resto da vida. “Em algumas nuances são ecos, em outras são gritos, e em outras ainda são coisas que agarram seu ser e trituram”, ele diz, enfático. Mas segue em frente: “Eu quero viver, as pessoas do Grajaú querem viver, ser felizes. Dividir com o mundo todo o amor que a gente tem no peito. Por mais que duvidem, a gente não liga para isso, a gente vai mandando o amor. Amor sempre, jamais perder a esperança!”

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