Em meio a desafios, mulheres fazem a diferença para a igualdade de gênero no país

O mês de março é marcado por eventos, discussões e ações em defesa da equidade de gênero e, também, pela luta em prol dos direitos femininos e pelo combate à violência. O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, se estendeu para além de uma data e representa as mudanças e as reflexões dos tempos atuais.

Segundo o livro de Ana Isabel Álvarez González, “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres”, tudo começou no final do século 19. Organizações femininas protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos. As jornadas de trabalho de aproximadamente quinze horas diárias e os baixos salários levaram as mulheres a greves para reivindicar melhores condições e o fim do trabalho infantil, que era comum nas fábricas. Mais tarde, o período desencadeou transformações e foi reconhecido pela ONU.

De lá para cá, as mulheres conquistaram muitos direitos. O voto e a inserção no mercado de trabalho foram os mais marcantes do século passado. O número de lares brasileiros chefiados por elas dá a dimensão dessa evolução: saltou de 23% em 1995 para 40% em 2015, de acordo com a pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça.

Os avanços foram significativos, mas ainda há muito a ser feito. Os dados também assustam. Apenas em janeiro de 2019, 100 casos de feminicídio foram registrados no Brasil. E, segundo o Estudo de Estatísticas de Gênero, do IBGE, as mulheres trabalham em média três horas por semana a mais do que os homens, mas ganham apenas dois terços do rendimento deles. Esses números evidenciam desigualdades mais acentuadas para mulheres negras, mães e transexuais.

O cenário continua desafiador – desistir, porém, não está no horizonte. Muitas brasileiras são exemplos de protagonismo e da atuação incansável para reverter a desigualdade e a violência em um futuro promissor para as mulheres. Conheça algumas delas e as suas histórias inspiradoras:

Carmela Borts, head de marketing na América Latina da Infor

Carmela Borst é a head de marketing na América Latina da Infor, companhia de soluções de software. Somente por isso, a empresária já seria inspiradora para outras profissionais. Mas ela também é uma das líderes do Women’s Infor Network Program (WIN), projeto dedicado ao desenvolvimento da carreira das mulheres dentro da companhia. “A história da computação está marcada por contribuições de grandes mulheres, como Ada Lovelace, Grace Hopper, Irmã Mary Kenneth Keller e Hedy Lamarr. Agora precisamos resgatar a presença feminina na área”, diz a executiva.

Desde o ano passado, 90% das funcionárias da Infor no Brasil recebem incentivo por meio de cursos, palestras e mentoria para progredir. De estagiárias e trainees a gerentes e diretoras na empresa, todas são estimuladas a falar sobre seus desafios e desejos e trabalhar em prol de suas carreiras.

Daniela Auad, professora da Faculdade de Educação da UFJF

“A educação é fundamental para mostrar que meninos e meninas podem ter autonomia nas mais diversas áreas e da mesma forma”, afirma Daniela Auad, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenadora do Flores Raras – Grupo de Estudos e Pesquisas de Educação, Comunicação e Feminismos.

Daniela foi Conselheira Estadual da Mulher e Participante do Observatório de Gênero e de Raça da Secretaria de Mulheres do Governo do Estado de Minas Gerais. Para a professora, uma escola que quebre os estereótipos de que determinadas brincadeiras são para um e não para outro, além de estimular os estudos em matemática para meninas e literatura para meninos, pode ajudar, entre outros pontos, a traçar um futuro com respeito às diversidades.

Gabriela Biazzi, gestora da Rede Feminista de Juristas

Gabriela Biazzi é gestora da Rede Feminista de Juristas e mestra em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Seu interesse por se especializar na questão das mulheres começou quando, ainda na graduação, percebeu a gravidade da desigualdade de gênero, que afeta a existência feminina das mais diversas formas.

“Desde a violência doméstica até o assédio sexual e discriminação no trabalho, passando pela divisão desigual do trabalho doméstico e também pela falta de autonomia no que diz respeito aos direitos sexuais e reprodutivos. Foi também nesse período que percebi que, na grade curricular e nas experiências profissionais comuns, não havia um olhar organizado para lidar com essas questões”, lembra. Desde 2016, a Rede já realizou cerca de 600 orientações a mulheres em situação de violência ou vulnerabilidade de gênero.

Jaqueline Gomes, professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro

Ao longo da história da psicologia e da psiquiatria, as mulheres foram estigmatizadas como loucas por meio de diagnósticos baseados em preconceitos. Quem pontua é Jaqueline Gomes de Jesus, professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, felizmente, os estudos nessas áreas caminham para o respeito à subjetividade, que leva ao acolhimento de todos.

“Existem muitas formas de ser mulher, falamos no conceito de ‘mulheridades’ para mostrar toda essa diversidade possível”. Integrante da Associação Brasileira de Psicologia Social, da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros, Jaqueline foi homenageada pelo Prêmio Rio Sem Homofobia, em 2016, pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.

Jéssica Scipioni, doula desde 2014

A palavra doula vem do grego e significa “aquela que serve”. Jéssica Scipioni ressalta, porém, que essas são as mulheres que servem outras mulheres em um momento muito significativo, o parto. Doula desde 2014, ela acompanha gestantes para proporcionar um ambiente agradável e seguro, dá apoio emocional e ajuda a possibilitar o parto da forma que a mulher deseja.

“Somos um intermédio entre a equipe médica e a gestante. Traduzimos termos, enfatizamos os planos da mulher para aquele momento, ajudamos a resgatar a força e a essência das experiências exclusivamente femininas”.

Para Jéssica, as doulas podem ajudar a reduzir os índices de violência obstétrica, porque fortalecem o contato das mulheres com o próprio corpo e mudam o lugar comum de que parto é sofrimento. A doula escreveu o livro “Guia da Gestação ao Puerpério – Como viver cada fase com mais leveza”, distribuído gratuitamente no seu site jessicascipioni.com. Ativa nas redes sociais, Jéssica também compartilha seus vídeos no Youtube, com informações sobre os 105 partos que já acompanhou.

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