Entrevista: Para Neca Setubal, a educação nunca foi um valor no Brasil

Hora H

Entrevista

 

À frente da Fundação Tide Setubal, que atua para reduzir desigualdades na periferia da zona leste paulistana, Neca Setubal fala sobre políticas públicas e sustentabilidade

 

 

Socióloga, educadora, doutora em psicologia da educação e presidente dos conselhos da Fundação Tide Setubal e do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), Maria Alice Setubal, conhecida como Neca, é também herdeira do Banco Itaú – esse traço familiar não despertou nela, contudo, interesse pelo mundo das finanças. Seu universo é a educação. Nessa conversa, que aconteceu na sede da Fundação Tide Setubal, no Itaim Bibi, ela comentou sobre as eleições que acontecem agora, frisou a importância de focar nas periferias, e lamentou que a educação nunca tenha sido levada a sério no Brasil: “O consumo é que sempre foi prioridade”.

 

Você esteve à frente das campanhas da Marina Silva em 2010 e em 2014. Por que se afastou nesta eleição?

“Eu me afastei desde o final de 2014. Vejo um cenário difícil e prefiro atuar a partir da sociedade civil. Faço parte do Pacto pela Democracia, um grupo que reúne mais de 50 organizações comprometidas em defender a democracia, o diálogo, a ética, a diversidade, a solidariedade. Estamos atentos para termos eleições limpas e transparentes, e depois das eleições pensar em uma reforma politica no país.”

 

Como você entrou na política partidária?

“Com a minha trajetória em educação, eu sempre atuei nas políticas públicas na Fundação, e me aproximei da Marina em 2010, quando fui responsável pelo programa da educação. Na época, nós tivemos uma afinidade de ideias muito grande, ficamos amigas. Participei de toda a construção do partido Rede e atuei na campanha de 2014 com o programa do governo. Eu gosto muito da política, ela sempre fez parte da minha história familiar. Meu pai [Olavo Setubal] foi prefeito de São Paulo, ministro – a política era um tema da conversa de jantar. Mas hoje estou fora da política partidária.”

 

O que faz a Fundação Tide Setubal?

“Nós apoiamos iniciativas que contribuem para a justiça social e a redução das desigualdades socioespaciais. Atuamos nas periferias, onde não há oportunidades e serviços como em outras regiões.

 

Em novembro, por exemplo, vai ter um festival do livro e da literatura, com atividades, palestras e conversas com escritores. A fundação também faz pesquisas sobre as desigualdades educacionais. As escolas que estão em território de maior vulnerabilidade são em geral aquelas sem infraestrutura, em que os professores faltam mais, em que os funcionários são temporários. É um círculo vicioso para baixo que precisa mudar. A gente não tem a educação como um valor. Na Coreia, a educação foi um valor de mobilidade social na década de 70. No Brasil, o valor de melhora social é o consumo. Isso foi dado por todos os governos, presidentes, com subsídios de eletrodomésticos e outras coisas. Todos os políticos falam que educação é prioridade, mas na hora de realmente efetivar em politicas concretas isso não aparece”.

 

Como melhorar o Brasil?

Eu aposto muito nos jovens, mas não no curto prazo. No curto prazo, é difícil romper o ciclo do poder, porque os partidos protegem seus atuais caciques. Mas já temos vários movimentos como o Agora!, Acredito, Quero Prévias, Bancada Ativista, grupos de jovens que estão buscando uma nova forma de fazer política, é uma renovação. Isso em todas as colorações e tendências. As redes sociais tornaram possíveis que diferentes vozes aparecessem.”

 

Você também é proprietária do hotel Fazenda Capoava, em Itu. Como é sua atuação nessa área?

“Desde 2001, quando criei a Fazenda Capoava com o meu marido, Paulo, nosso olhar é para a questão da sustentabilidade. Além de preservar a cultura brasileira na arquitetura do casarão, na gastronomia, no museu que conta toda a história, fizemos a partir de 2012 um grande restauro florestal. Plantamos 400 mil mudas de Mata Atlântica, uma metodologia que durou três anos e que fez os animais voltarem: vemos agora lobo guará, veado, cachorro do mato. Nosso problema agora são os caçadores, que surgiram por causa da fauna. Eu morro de dó e temos trabalhado isso no entorno, fazendo programas de conscientização.”

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