Especialistas explicam por que o cérebro deve ser exercitado

Executivos e empresários têm sido cada vez mais assíduos nas consultas a neurocientistas e especialistas em reabilitação da memória. A constatação é de Ana Alvarez, fundadora da Academia da Mente e autora de cinco livros sobre o assunto, fonoaudióloga e doutora em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Os profissionais têm objetivos que dependem da memória. Querem aprender idiomas, conseguir novas habilidades e desenvolver vários projetos ao mesmo tempo. Com um plano de exercícios e estratégias, é possível chegar lá”, explica Ana, para quem a atividade do cérebro deve ser encarada como a atividade de um músculo: quanto mais for trabalhado, maior e melhor é o seu potencial.

O problema é que o estilo de vida atual – muito competitivo e com valor excessivo às mídias sociais – tem comprometido cada vez mais a capacidade de memorização. Além do volume desproporcional de informações, das pressões e dos ilimitados comandos da rotina digital, há a falta de tempo para processar tudo isso, o que gera uma espécie de pane no sistema nervoso. Surgem os brancos, as falhas que acometem a pessoa na hora mais inadequada.

Para os especialistas, os lapsos esporádicos são inofensivos. “O que preocupa é quando a pessoa tem uma ansiedade enorme para dar conta de tudo. O estresse pode alterar o equilíbrio químico do cérebro, causando o encolhimento das sinapses, o que diminui a capacidade de atenção e, portanto, de memorização”, diz Ana Alvarez.

Aprender é o verbo

Ao contrário do que muita gente imagina, hoje a ciência não relaciona somente a idade ao esquecimento. “A ideia de que a memória é uma capacidade fixa, inalterável, que vai diminuindo com o passar do tempo, ficou definitivamente para trás. Hoje sabe-se que ela é uma capacidade flexível, que pode ser aprimorada constantemente, durante toda a vida”, explica o neurocientista Koichi Sameshima, do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da USP.

E como desenvolvê-la? Conjugando o verbo “aprender”, que pode incluir desde a prática de exercícios e jogos, ao estudo de uma nova língua ou habilidade. “Posso dizer que o cérebro fica em estado de encantamento e desencadeia o mecanismo de recompensa quando a gente se esforça e aprende algo que quer muito”, conta Ana Alvarez, lembrando as aulas de tango que fez durante três meses, e que foram um grande prazer.

Soneca é o segredo

“A memória se beneficia de um plano de intervenção que inclua controle de horas de sono, adequação da alimentação, atividade física com força direcionada e exercícios de ativação diferencial de áreas cerebrais”, explica Ana Alvarez. “Manter-se acordado e alerta com as chamadas smart drugs e fórmulas, drogas que buscam melhorar a atenção e agilizar o desempenho intelectual, é um risco ao equilíbrio dos bilhões de neurônios”, ela alerta.

Na opinião do neurocientista Koichi Sameshima, o uso de drogas e medicamentos para ativar a memória traz riscos para o cérebro. “Por que mexer nessa estrutura perfeita?”, questiona. “Não recomendo porque não há comprovação científica de que esses medicamentos façam efeito. E depois porque é possível usar outros recursos, que são eficazes e não têm contraindicação”, afirma. Ele cita a substância conhecida como xantina, presente no café, no chocolate e em alguns chás. De acordo com o pesquisador, a substância aumenta a atenção e o estado consciente, além de ser um estimulante natural – desde que consumido em doses moderadas. “Outro recurso valioso é a soneca. Eu a uso na minha rotina profissional e posso dizer que vale a pena incluir uma pausa no meio do dia. A soneca funciona como um ‘garbage collector’ (coletor de lixo), quando é possível editar suas ideias. Você retém o que aprendeu, depura e joga fora o que não presta. Esquecer também é fundamental para lembrar melhor”.

 

Sua memória é o que você come: 

 

A clássica afirmação de que “você é o que você come” pode ser tranquilamente aplicada à memória. Nesse caso, alimentar-se para manter um cérebro tinindo significa comer gordura adequada e alimentos ricos em vitamina B. De acordo com os entrevistados, o cérebro precisa da gordura poliinsaturada, encontrada nos peixes, nas castanhas e nas nozes, e também da insaturada, presente no azeite de oliva extravirgem. Essas gorduras melhoram a aprendizagem e o intercâmbio de informações no cérebro. Os neurônios também são famintos por vitaminas do complexo B, encontradas em frutas, legumes e cereais integrais. Um almoço que inclua salmão (peixe farto em boa gordura) temperado com limão, verduras, arroz integral e molho de nozes, por exemplo, é um poderoso combustível para a mente, porque conserva o equilíbrio de aminoácidos, necessário para a formação e a estabilidade dos neurotransmissores, os componentes químicos que mantêm as células do sistema nervoso conectadas.

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