Meu colega robô: a quarta revolução industrial e o futuro do trabalho

Os desafios que aguardam os profissionais de hoje são muito maiores do que antigamente. A tecnologia avança a passos largos, transformando, criando e destruindo empregos. Se por um lado as empresas pareciam estar plenamente adequadas à integração digital que as redes sociais e celulares promoveram, em contrapartida a sofisticação das máquinas e dos algoritmos promete abalar ainda mais profundamente – e com maior velocidade – o mercado de trabalho nos próximos anos.

A robotização é uma realidade próxima. Foto: Getty Images

Inteligência artificial, big data, internet das coisas, avanços na robótica e nas biociências, essas e outras inovações serão diretamente responsáveis por substituir profissionais de diferentes áreas e níveis de qualificação. O estudo “The Future of Employment: How Susceptible Are Jobs to Computerization?”, escrito pelos doutores de Oxford Carl Frey e Michael Osborne, prevê que até 2033 cerca de 47% das profissões na economia norte-americana estarão em risco de extinção devido aos avanços da automação.

“No passado, se falava que a automação eliminava vários empregos de baixa qualificação e baixa remuneração e criava poucos empregos de alta capacitação e remuneração. Essa era a realidade da terceira revolução industrial. Agora nós estamos começando a viver a quarta, onde os empregos de média e/ou de quase alta capacitação e remuneração também começam a ser afetados com o processo da inteligência artificial tomando decisões”, explica Sergio Luiz Pereira, professor doutor da Poli-USP com tese de livre-docência na área de engenharia de automação alinhada ao desenvolvimento sustentável.

A quarta revolução industrial

Esse termo foi cunhado pelo Fórum Econômico Mundial em 2015 e, no ano seguinte, foi tema do encontro anual em Davos, na Suíça. Pereira defende que essas grandes revoluções só acontecem quando há uma inovação tecnológica associada a transformações políticas e sociais. A primeira revolução industrial aconteceu no Reino Unido, em 1776, com o surgimento da máquina a vapor e a consolidação da teoria do liberalismo.

Seguindo para os EUA na década de 1910, o engenheiro mecânico Henry Ford inaugurou a era da produção em massa ao implementar a primeira linha de montagem seriada. No pós-Segunda Guerra, a robótica e a automação começaram a emergir, enquanto o Plano Marshall reconstruía a economia do Japão e da Alemanha. Desse período até a atualidade, diz-se que estamos vivendo a terceira revolução, que também inclui, na década de 1990, a globalização dos modos de produção e o surgimento da internet, entre outros avanços. Nos próximos anos, viveremos mudanças ainda mais drásticas.

Motor a vapor de James Watt feito na primeira revolução industrial

Estamos vivendo na “era do mundo exponencial”, pois as inovações científicas acontecem com extrema rapidez. “Na quarta revolução, as fronteiras entre o mundo físico/ real e o mundo virtual tornam-se cada vez mais difusas. Os sistemas de inteligência artificial, por exemplo, podem tomar decisões com relação a vendas, a transporte e a custos, com o objetivo de otimizar a produção e maximizar os lucros”, descreve o engenheiro.

Ele considera que a inteligência artificial e os demais avanços tecnológicos da revolução 4.0 criarão possibilidades incríveis de produção com menos impacto ambiental e gastos. Porém, ele ressalta que a automação trará uma série de desafios políticos, jurídicos e administrativos. Como manter a população do planeta ocupada e motivada é a principal questão.

“A humanidade pode caminhar para uma quase utopia, livrando o ser humano dos trabalhos enfadonhos, chatos e que possam gerar doenças. Assim, as pessoas podem direcionar a sua energia para atividades criativas e de auto-aperfeiçoamento. Mas é possível caminhar para uma distopia com uma legião gigantesca de desempregados; com uma concentração de renda muito maior do que a atual; e governada por estados totalitários e organizações transnacionais hiperpoderosas que controlem basicamente tudo. As duas realidades são possíveis, só dependem da vontade política”, prevê Pereira.

Assim como o professor, o Fórum Econômico Mundial apresenta duas alternativas possíveis com o avanço da automação. A primeira é uma sociedade mais inclusiva, onde se consolidará uma nova era do trabalho repleta de oportunidades e com uma melhor qualidade de vida. A segunda é marcada por índices altíssimos de desemprego e desigualdade (tanto de renda como de competência). Para Armando Dal Colletto, diretor acadêmico do Institute of Performance & Leadership e especialista em educação executiva, as duas realidades acontecerão em lugares distintos.

Assistente de voz pode fazer inúmeras tarefas. Foto: Getty Images

As chances da alternativa mais otimista ocorrer em países e centros mais desenvolvidos é maior. As novas tecnologias e os negócios que decorrem delas costumam ser criados nesses polos – o que gera oportunidades de emprego para pessoas mais qualificadas. Como o nível educacional desses lugares costuma ser alto, a probabilidade dos profissionais demitidos se ajustarem ao novo mercado é grande.

Já o cenário pessimista é o que parece aguardar os países e centros menos desenvolvidos. Devido ao fato de as tecnologias serem desenvolvidas fora, há pouca inovação na forma de se fazer negócios e essas regiões tardam a criar novas oportunidades de emprego enquanto a robotização avança. A baixa educação agrava essa situação, pois diminui as chances de readequação dos profissionais desocupados.

“Com isso podemos concluir que para alguns a revolução 4.0 será uma fonte de prosperidade e para outros uma exclusão do mercado. Dependerá totalmente de como o profissional ou o empreendedor se preparou e das suas ações, atitudes e comportamentos e locais escolhidos”, sintetiza Dal Colletto. Os desafios que estão por vir exigem uma postura diferente dos executivos e líderes de empresas, especialmente no que diz respeito a como eles encaram a sua formação.

O profissional do futuro

“A época em que as pessoas estudavam primeiro e depois trabalhavam acabou. Hoje e no futuro o aprendizado será contínuo e necessário para a sobrevivência profissional. Em breve, não haverá muita distinção do que é trabalho e estudo e os perfis pós-revolução 4.0 serão dinâmicos, permitindo que o profissional tenha muitas especialidades e múltiplos ciclos durante sua vida, graças à longevidade e a alta disponibilidade de reciclagem”, argumenta Dal Colletto, que reforça que o fundamental não será o acúmulo de certificados e diplomas, mas a capacidade de realização dos trabalhadores.

Robô aspirador de pó pode ser acionado por aplicativo. Foto: Getty Images

Volátil, incerta, complexa e ambígua – assim é a era que estamos vivendo, conhecida como mundo V.U.C.A. “Os problemas da atualidade são complexos, o que requer capacidades de análise, síntese e de pensamento crítico não muito praticadas pelos empresários de gerações anteriores. Dominar vários campos do conhecimento e ter uma visão abrangente serão requisitos dos líderes. Estar aberto a sempre aprender e a desaprender será fundamental”, explica Dal Colletto.

Para Sergio Luiz Pereira, o empresário deve pensar no lucro da empresa, sem esquecer que ela tem um papel dentro do tecido social e que depende da saúde desse tecido social para continuar existindo. “Em outras palavras, aquele velho profissional que só olhava o lucro está morto. Porque até uma empresa que só olha o lucro é uma empresa sem futuro”.

Perfil desejado

Para se destacar nessa nova realidade, Dal Coletto enumera as competências compatíveis com o mundo V.U.C.A :

01. Habilidade de se concentrar e ter foco

02. Habilidade em separar o que é útil no mar de informações

03. Habilidade de resolver problemas em redes de cooperação

04. Pensamento adaptativo

05. Capacidade de análise e de detectar tendências e rupturas

06. Capacidade de síntese

07. Capacidade de comunicação

08. Pensamento crítico

09. Agilidade de aprendizado

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