Estreia a peça “Chá e Catástrofe”, com quatro grandes atrizes brasileiras

As quatro atrizes da peça, em foto de ©Joao Caldas Fº: Chris Couto, Clarisse Abujamra, Agnes Zuliani e Selma Egrei

“Chá e Catástrofe” é uma comédia dramática que se passa num quintal inglês onde quatro senhoras falam sobre o cotidiano. As conversas bem-humoradas são entrecortadas por visões apocalípticas que envolvem crimes ambientais, guerras químicas, fome e excessos humanos.

Com estreia marcada para 5 de abril no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000), a peça tem no elenco Clarisse Abujamra, Selma Egrei, Chris Couto e Agnes Zuliani, tradução de Eliana Rocha e direção de Regina Galdino. O projeto foi contemplado na 7ª edição do Prêmio Zé Renato de Apoio à Produção e Desenvolvimento da Atividade Teatral para a Cidade de São Paulo.

A montagem original de Churchill, considerada a mais importante dramaturga inglesa viva, estreou há três anos no The Royal Court Theatre, em Londres, com o título de Escaped Alone. Seu texto curto, minimalista e antiutópico traz uma análise da paranoia do mundo sob o ponto de vista de uma gera ção de mulheres que precedeu o Facebook e o iPhone, desnudando o isolamento das pessoas na sociedade moderna e a estupidez das agressões ecológicas provocadas pelo capitalismo. As proféticas tragédias, embora surrealistas, remetem facilmente à realidade da vida contemporânea.

A história se passa durante o chá da tarde de Vi (Selma Egrei), Lena (Chris Couto) e Sally (Agnes Zuliani), quando são surpreendidas pela intrusa e misteriosa Sra. Jarrett (Clarisse Abujamra), que entra no quintal por uma abertura na cerca. Nesse prosaico encontro serão reveladas, com ironia, as dificuldades de comunicação e a solidão, além dos dramas de mulheres mais velhas, entremeados por visões ambientais catastróficas.

Enquanto uma mulher revela seu segredo, que envolve o marido e uma faca de cozinha, outra desfia suas inúmeras razões para ter medo de gatos e outra mostra o bloqueio da depressão: o impacto disso sobre outras mulheres, suas filhas e netas, pode ser tra nsformador. Apesar da ameaça perturbadora, naquele quintalzinho bucólico, elas desafiam com humor a escuridão do mundo l&aac ute; fora.

A epígrafe do texto, “Só eu escapei para te trazer a nova”, citação do Livro de Jó e de Moby Dick, é umas das chaves do espetáculo, segundo a diretora Regina Galdino. “Poderemos observar a dimensão claustrofóbica do cotidiano de três vizinhas pelo contraste com as visões extraordinárias de uma mensageira, uma sobrevivente. O texto é muito moderno, extremamente entrecortado, tanto em seus diálogos quanto nos solilóquios apocalípticos, trazendo a musicalidade de diálogos pós-modernos e estabelecendo momentos muito divertidos e tocantes, que acentuam a incomunicabilidade dessas mulheres”, afirma a diretora.

©Joao Caldas Fº

Ainda pouco conhecida no Brasil, apesar de seus 80 anos de vida e dos numerosos prêmios internacionais, Caryl Churchill acumula uma lista volumosa de sucessos no teatro: com 59 anos de carreira, escreveu mais de 30 peças, além de adaptações e peças radiofônicas. Segundo o dramaturgo alemão Marius von Mayerburg, “Churchill mudou a linguagem do teatro”, um elogio que só os grandes autores já receberam, entre eles Shakespeare, Tchecov, Ibsen, Brecht e Beckett. Contemporânea de Harold Pinter, sua dramaturgia lida com temas feministas, abusos de poder e o vazio do mundo atual. Suas obras Top GirlsCloud NineSerious MoneyA Number e Far Way foram marcos da cultura inglesa moderna, abordando assuntos tão diversos como a clonagem, o sexismo, os impulsos de possuir e destruir, o capita lismo e a guerra. Sua escrita é lúdica, séria, engraçada, teatral, ousada, inovadora, poética, política, não naturalista e surreal. “A questão não é como Caryl Churchill influenciou a dramaturgia feminina, mas sim se há dramaturgo contemporâneo, homem ou mulher, que não tenha sido influenciado por sua obra”, escreveu a dramaturga April de Angelis para The Guardian.

Eliana Rocha, tradutora e idealizadora do projeto, conta por que se interessou pelo texto: “Em 2016, eu procurava conhecer novas peças de teatro e me deparei com essa joia da dramaturgia inglesa. O que me chamou a atenção foi o fato de Caryl ter escrito para quatro mulheres mais velhas. Comecei a ler e vi que a escrita vinha numa linguagem teatral muito contemporânea. Ela fala mais em quatro palavras do que outros dramaturgos dizem em quatro parágrafos. Frases entrecortadas ou sobrepostas, um pensamento que não se completa. Mas, quando li o primeiro monólogo da Sra. Jarrett, vi que aquela peça ia muito além de uma conversinha doméstica entre quatro amigas. O apocalipse não estava nu m futuro remoto. Sua presença já era visível no presente. Está à nossa volta. E, apesar de tudo isso, havia hu mor ali”.

A temporada de “Chá e Catástrofe” no Centro Cultural São Paulo vai até o dia 12 de maio, sextas e sábados às 21h e domingos às 20h.

Sobre Caryl Churchill 

Caryl Churchill nasceu em Londres, Inglaterra, em 3 de setembro de 1938. Após a Segunda Guerra Mundial, sua família emigrou para Montreal, no Canadá, quando Churchill tinha dez anos. Voltou para a Inglaterra para frequentar a universidade e, em 1960, formou-se em Lady Margaret Hall, uma faculdade femi nina na Universidade de Oxford, com licenciatura em literatura inglesa, onde iniciou sua carreira de escritora. Seus primeiros trabalhos foram desenvolvidos com técnicas brechtianas, utilizando o teatro épico para explorar questões de gênero e sexualidade. A partir de 1986 começou a experimentar formas de teatro dança, incorporando técnicas performáticas iniciadas por Antonin Artaud com seu “Teatro da Crueldade”. Sua dramaturgia foi se tornando cada vez mais fragmentada e surrealista, caracterizando seu trabalho como pós-modernista. Em 1972 escreveu Owners, uma peça de dois atos e catorze cenários sobre a obsessão com o poder. Suas visões socialistas são expressas na peça, uma crítica aos valores que a maioria dos capitalistas valorizam: agressividade e progresso. Atuou como dramaturga residente no Royal Court Theatre de 1974 a 1975 e, m ais tarde, começou a colaborar com companhias de teatro, como Joint Stock Theatre Company e Monstrous Regiment (um coletivo de teatro feminista). Sua primeira peça de grande sucesso foi Cloud Nine (1979), “uma farsa sobre política sexual”. Ela explora os efeitos da mentalidade colonialista e imperialista nos relacionamentos pessoais íntimos e usa o elenco masculino para efeito cômico e instrutivo. A peça foi bem-sucedida na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, ganhando um Obie Award em 1982 como melhor peça do ano em Nova York. Também levou o Obie como melhor peça por Top Girls (1982), “que trata das mulheres que perdem sua humanidade para alcançar o poder em um ambiente dominado pelos homens”. Entre suas peças mais recentes estão Ding Dong the Wicked (2013), Here We Go (2015), Pigs And Dogs (2016) e Escaped Alone (2016).

Serviço

Chá e Catástrofe

Centro Cultural São Paulo – Sala Jardel Filho (Rua Vergueiro, 1.000 – Paraíso)

Temporada: 5 de abril a 12 de maio

Horários: sextas e sábados às 21h e domingos às 20h

Duração: 50 minutos

Ingressos: R$ 20 (inteira) | R$ 10 (meia)

Telefone: 3397-4002

Bilheteria: terça a sábado, das 13h às 21h30, e domingos, das 13h às 20h30

Vendas online: Ingresso Rápido, vendas a partir de 30 dias antes do evento no site  www.ingressorapido.com.br

Preço popular: R$ 3,00 (dia 14/4, domingo) & ndash; serão vendidos apenas dois ingressos por pessoa, na bilheteria do CC

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