Homens buscam reinventar a forma como aprenderam a ser pais compartilhando informações e emoções

Grupo de pais e gestantes coordenado pelo naturólogo Tiago Koch

O dia dos pais pode ir além das propagandas de presentes e dos descontos em lojas masculinas. Um verdadeiro movimento busca ressignificar as masculinidades nas redes sociais e fora delas. Encontros e atividades que procuram estimular o compartilhamento de emoções entre homens e a reflexão sobre o que é a violência de gênero e o papel da paternidade nos dias de hoje, valorizando a participação deles na educação e no cuidado dos filhos, são a principal tendência para esta data e toda uma geração de novos homens.

Claudio Serva é fundador do grupo Prazerele, um espaço físico e virtual para a desconstrução do machismo. Depois de trabalhar por anos em uma imobiliária, ele descobriu que a meditação e a conversa eram formas potentes para se reinventar e se sentir mais completo. “Eu estava obeso, bebendo e infeliz em uma relação, precisava de uma transformação”.

Em 2014, começou a fazer cursos sobre sexualidade e decidiu dividir com outros homens seus conhecimentos. Hoje, promove rodas de conversa para o protagonismo e a autonomia socioemocional de homens de todas as idades. “Falamos sobre se conectar verdadeiramente em relações amorosas, ouvir as mulheres e abrir mão da função limitante de ser apenas o provedor, afinal de contas o machismo também faz mal para nós”.

A paternidade pode ser esse gatilho de transformação. O naturólogo Tiago Koch sentiu essa “revolução” em sua própria vida, quando vivenciou de perto o nascimento de sua filha, Iara, agora com três anos. “O nascimento de um filho é um evento sem igual. Se o homem compartilha essa emoção e está presente em todas as etapas, com certeza isso refletirá em sua vida”.

Tiago Koch trabalha com um cliente “grávido”

Grupos sobre gestação e parto eram do universo apenas feminino até pouco tempo, mas alguns homens já querem estar prontos para esse momento também. “Ainda é algo iniciante e, do ponto de vista geral, ainda somos a minoria, mas alguns homens me procuram porque querem ser pais diferentes do que os seus foram”. Tiago criou o espaço Homem Paterno, onde dá cursos para homens sobre as fases da gestação, sobre como dar suporte durante o parto, os diferentes tipos de partos e como vivenciar o puerpério junto da mulher.

Para o psicólogo Tales Mistura, que coordena grupos de homens autores de violência de gênero no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, em São Paulo, um caminho para desenvolver formas mais ricas de se lidar com conflitos, como por meio do diálogo e da empatia, é a paternidade. “Muitos homens são resistentes a mudar comportamentos machistas, mesmo ouvindo e entendendo racionalmente a dor e a desigualdade que as mulheres passam. Mas quando se tornam pais e lidam com emoções e afetos, vão precisar elaborar as próprias questões e, assim, surge uma possibilidade de reflexão e mudança”.

A reinvenção da masculinidade e da paternidade é uma pequena chama. Atualmente, mulheres dedicam 73% mais tempo do que os homens em tarefas domésticas e nos cuidados com os filhos no Brasil. Elas gastam 18 horas semanais com tais tarefas, enquanto eles gastam 10, segundo o IBGE. Ainda há muito espaço para mudança, mas já foi dada a largada e os homens replicam com outros as ideias e os afetos que descobrem nesses grupos.

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