Diretor de “A Vida Invisível”, Karim Aïnouz é um exímio contador de histórias

Um dia antes da entrevista para esta matéria, Karim Aïnouz soube que seu longa, “A Vida Invisível”, foi selecionado para concorrer à vaga de melhor filme estrangeiro no Oscar, em fevereiro, em Los Angeles. “Não esperava. É uma responsabilidade gigante e uma alegria ainda maior”, confessou o cineasta no café do hotel Belas Artes, em São Paulo, onde estava hospedado.

Karim Aïnouz

Diretor cearense superou Kleber Mendonça Filho, com “Bacurau”, para ser o representante do Brasil no Oscar 2020. Foto: Jorge Bispo

Todo de preto, e com as unhas da mão esquerda pintadas da mesma cor, Karim era pura emoção ao falar sobre o filme que venceu a mostra Um Certo Olhar, de Cannes, e que estreia em todo o Brasil no dia 31 de outubro.

O longa foi baseado no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha. Em 2015, Karim recebeu de Rodrigo Teixeira, produtor do filme, o manuscrito do livro, àquela época ainda não publicado. “Eu fiquei encantado com os personagens e com a trama e decidi adaptar a história”.

Era um momento difícil para o cineasta. “Eu estava perdendo minha mãe, uma mulher muito forte, muito danada. Ela foi a primeira aluna de um curso da universidade do Ceará, foi cientista, uma guerreira. Ao mesmo tempo me criou sozinha, em uma época em que o patriarcado imperava e as mulheres não tinham voz”.

No Rio dos anos 1950

Enquanto lia aquele manuscrito, Karim teve certeza de que queria muito contar essa história. Mostrar a vida de mulheres silenciadas da primeira metade do século XX, cheias de sonhos, mas controladas e sufocadas por uma sociedade machista. A trama começa em 1939, acompanhando a vida de duas irmãs: Eurídice, interpretada por Carol Duarte, e Guida, por Julia Stockler. Também integram o elenco Gregório Duvivier e Fernanda Montenegro, em uma participação especialíssima no final, a cereja do bolo.

O filme é lindo e comovente – a sensibilidade de Karim está em todos os detalhes e, principalmente, na construção impecável dos personagens. “Para mim, 90% do trabalho é a escolha dos atores”.

Karim, no set, com Carol Duarte

Ele fez dois mil testes para chegar a esse time de talentos brasileiros e portugueses. “Somos um país de imigrantes, e eu queria olhar para os portugueses que vieram para cá, contar essa história de luta”.

Na pesquisa de casting, Karim desenvolveu um método peculiar. Ele pedia para que os atores se filmassem descascando batata. “Se você consegue ver alguém descascando batata durante três minutos é porque a pessoa tem um borogodó, né?”, diz, rindo. Passada essa peneira, vinham exercícios de improvisação e um trabalho forte com a concentração dos atores.

O set de filmagem de Karim é um santuário protegido, onde é preciso mergulhar com tudo na história e nos personagens. “Peço para não usarem celular. Você vai fazer uma cena em que tem que chorar e fica antes enviando mensagem sobre o ovo que tem que comprar?”, indaga, divertido.

Vida de circo

“A gente monta tenda na rua, põe comida, o caminhão vai de uma locação a outra, leva a luz. E como em qualquer circo você vai criando uma intimidade com quem trabalha. A Fernanda me disse: ‘Meu filho, a gente só filmou durante quatro dias e parece que se conhece há anos’. O envolvimento é intenso e precisa acontecer para ficar bom. Não é trabalho burocrático, não dá para fazer um filme sem perder um dedo ou quebrar um nariz. Filmar é uma pequena guerra”.

Para focalizar a atenção do elenco, ele põe os atores para bordar nas horas de folga. “Ator é uma coisa extraordinária, que sente coisas, que te faz sentir coisas, é impressionante. Mas para você permitir que ele acesse esses sentimentos é preciso trabalhar com muito cuidado”. No trabalho de Karim, cineasta premiado e conhecido por filmes como “Madame Satã”, “O Céu de Suely” e “Praia do Futuro”, todo esse esforço aparece como resultado na tela.

As atrizes Julia Stockler, Carol Duarte interpretam as irmãs Guida e Eurídice, no filme

Carol Duarte e Julia Stockler, em suas estreias no cinema, estão absolutamente incríveis. Gregório Duvivier surpreende na pele de Antenor. “Ele habitou aquele personagem de uma maneira… Eu não queria um vilão desumanizado, e o Gregório fez isso, um personagem que também é vítima do seu próprio tempo”.

E Fernanda Montenegro? “É óbvio que eu sempre sonhei trabalhar com ela, uma fortaleza. Fernanda tem uma integridade que é fundamental na personagem”.

Entre Fortaleza e Berlim

No dia 19 de setembro, ele fez uma estreia especial de seu filme em Fortaleza, sua cidade natal, na abertura do festival Cine Ceará. A exibição foi na sala São Luiz – o lugar onde viu seu primeiro filme, “Mimi, o Metalúrgico”, da cineasta italiana Lina Wertmüller. “Achei importante celebrar o Nordeste como lugar de resistência. É uma vitória para o cinema nordestino, que vem se destacando com vários filmes”.

Arquiteto de formação, Karim saiu do Ceará muito jovem para fazer mestrado em artes visuais nos Estados Unidos. Viveu um período na França e há dez anos mora em Berlim. Dos 53 anos de vida passou 35 fora do país. “Gosto de estar em trânsito. Casa para mim é não estar em casa”.

Fernanda Montenegro, em “A Vida Invisível”

Na capital alemã, o diretor curte a cidade horizontal com gente do mundo inteiro, cosmopolita, moderna, mas com um estilo de vida campestre. “Eu me sinto mais leve, lá eu faço tudo de bicicleta e a pé. Ela tem uma oferta cultural gigante e um custo de vida baixo, e isso para mim é muito importante. Não quero passar a minha vida ganhando dinheiro, eu quero passar a minha vida vivendo”.

Ao mesmo tempo, segundo ele, Berlim guarda uma cultura indecifrável, de mistério: “Isso me estimula criativamente”. Em 2018, fez em Berlim o documentário “Aeroporto Central THF”, que estreou na Mostra Panorama do 68° Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde recebeu o Prêmio Anistia Internacional.

“Em 2015, quando a Angela Merkel fez a política de portas abertas e recebeu muita gente que estava fugindo da guerra da Síria, eu fiquei indignado como as coisas saíam na mídia. Aquelas centenas de milhares de pessoas estavam fugindo de uma guerra e eram tratadas como invasoras”.

O filme “Aeroporto Central THF” é o diário de Ibrahim, um jovem de 18 anos que chega à Alemanha e que Karim acompanhou mês a mês. Esse aeroporto é do lado do apartamento dele, a única construção militar que não foi destruída. Foi transformada em um parque e, em 2015, acolheu os refugiados da guerra do Oriente Médio.

Karim com sua equipe, no set de filmagens

Uma história, lembra o cineasta, que também é da sua família. Seu pai, nascido na Argélia, foi para a França como refugiado. “O que está em pauta é uma guerra que dá milhões em lucros para os países europeus que vendem armas. Esses países não têm um mínimo de generosidade”, reflete.

Em fevereiro, Karim esteve na Argélia para fazer um documentário no lugar onde o pai nasceu. “Um vilarejo nas montanhas em um lugar perdido, cheio de Aïnouz”. Encontrou várias pessoas com seu sobrenome.

Inúmeros planos fervilham em sua cabeça. Karim está fazendo um projeto baseado no livro de Geovani Martins, “O Sol na Cabeça”. Também pretende filmar em 2020 uma história no Japão sobre os decasséguis. Estão nos planos um livro de fotografia, porque tem um acervo gigante de fotos suas que quer compartilhar, e o desejo de dirigir uma peça de teatro no Brasil.

Fora da aba trabalho enfileiram-se viagens. Andarilho e poliglota, ele sonha passar um tempo no Deserto do Saara, conhecer Lagos, visitar o Irã, fazer a Transiberiana e ir para a Groenlândia. “Nasci no lugar mais quente do Brasil, mas amo o frio. O Polo Norte é onde me sinto mais feliz.”

“Uma viagem por ano vai bem, mas o que eu gosto mesmo é de fazer cinema. E quero alcançar um público maior com “A Vida Invisível”, explica. “Confesso que a situação do Brasil me deixou bastante aflito. Na última eleição eu pensei: quem são esses milhões de pessoas que votaram no presidente que a gente tem aqui? Que cinema é esse que a gente vem fazendo? E fiquei com vontade de falar para esse público. Sinto que essas pessoas estão desamparadas. Acho importante olhar para elas, não ignorá-las. E esse é um melodrama relevante para os nossos tempos. Um filme que dá visibilidade a vidas invisíveis, mostra a força das mulheres. Tudo a ver com o momento atual, no Brasil e no mundo”.

Confira o Ping Pong 29 com o diretor:

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