Da baixada fluminense para o mundo: a história de Ludmilla

Tudo começou com a Beyoncé, um caldo de cana e o melhor pastel de Duque de Caxias. Era um domingo de 2007, e, como de costume, a família de Ludmilla foi almoçar em sua feira favorita na cidade. Enquanto a mãe dela, Silvana, fazia o pedido, a pré adolescente Ludmilla Oliveira da Silva zanzava curiosa pelas barracas. Foi nesse momento que ela se deparou com a mulher que iria mudar a sua vida: Beyoncé. A diva americana não estava a passeio no subúrbio carioca quando esse encontro aconteceu, mas a sua arte estava.

“Eu vi o DVD dela tocando na rua e fiquei vidrada. Nem consegui comer o meu pastel naquele dia. Me apaixonei e queria ser igual a Beyoncé. Ela cantava e dançava muito bem e ao mesmo tempo, eu nunca tinha visto alguém fazer aquilo”, recorda a cantora, que conseguiu convencer a mãe a comprar o DVD, depois de muita insistência.

Ludmilla

Atualmente, Ludmilla é uma das principais cantoras brasileiras. Foto: Divulgação

Nessa fase, a música já era algo central na vida de Ludmilla. Sua mãe administrava um bar em Caxias e seu padrasto, Renato de Araújo da Silva, era pagodeiro. Desde os oito anos, a garota franzina, primogênita de três filhos, acompanhava a família nas rodas de samba. “Eu já sabia que o que queria para a minha vida era a música”. No início, essa ideia preocupava bastante a mãe. Além da instabilidade da carreira, na região imperava o pagode, um ritmo dominado por homens.

“Minha mãe dizia: ‘Larga a Beyoncé, filha, ela tá com a vida ganha”, conta a cantora. “Ela queria o melhor para mim, mas quem é artista pensa diferente, nós respiramos arte… E lá estava eu tentando explicar isso para minha mãe, aos 13 anos”. Hoje, Silvana e a irmã de Ludmilla, Luane, são as responsáveis por cuidar da agenda da cantora, entre outras funções.

Musa inspiradora

Mas foi no funk que ela conseguiu associar dança e música. Ludmilla sempre amou dançar ao som do batidão, e resolveu também compor canções nesse ritmo. Aos 16 anos, lançou na internet o single “Fala Mal de Mim”, que tinha todos os elementos indispensáveis – a melodia marcante e o refrão – para se tornar uma música chiclete. Na hora de assinar a composição, não teve dúvidas: lacrou o seu nome artístico, MC Beyoncé.

Ludmilla, no Réveillon de 2019 no Rio. Foto: Marco Estrella / Divulgação

A partir daí, Ludmilla começou a ficar conhecida nas redes sociais e estreou sua agenda de shows. Nem ela acreditava que isso estava acontecendo. “No Facebook, muita gente pedia para me adicionar. Primeiro, pensei que fosse o pessoal da minha escola me trolando, porque quando disse que ia ser MC todos riram e ninguém acreditou. Mas muita gente de São Paulo, de Vitória e de Porto Alegre começou a me adicionar. Era real!”

Pernas tremendo

Seu primeiro show como MC Beyoncé foi em São Paulo, em 2012. “Lembro que eu estava nervosa e minhas pernas tremiam bastante, mas eu consegui levar, cantei com o pessoal e vi que o palco era um lugar que eu poderia dominar se estudasse mais um pouquinho”.

Desde então, a carreira de Ludmilla acumula sucessos. Em 2014, ela assinou contrato com a Warner Music e abandonou o título de MC Beyoncé, assumindo seu nome e cantando vários estilos. Aos 24 anos, se firmou como umas das artistas de maior sucesso do Brasil. Seus videoclipes têm mais de 1,4 bilhão de visualizações no Youtube; todo mês, mais de 6 milhões de pessoas ouvem suas canções na plataforma de streaming Spotify; e seu número de seguidores no Instagram superou a marca dos 18 milhões.

Sua musa inspiradora, Beyoncé. Foto: Reprodução

Além de cantora e dançarina, ela domina a arte de compor músicas dançantes e que grudam na cabeça. Seu método é deixar a inspiração fluir. “Se eu passo por uma situação ou vejo algo que mexe comigo, já pego o celular e gravo uma parte do que será a melodia. Depois, vou trabalhando mais na música.”

A espontaneidade e a objetividade são traços marcantes da cantora. Em 2013, no programa “De Frente com Gabi”, ela respondeu à Marília Gabriela qual seria o seu maior medo na vida: “Cair de moto e me ralar toda”. Hoje, ela pondera que seu maior medo não é mais esse, mas morre de medo de perder uma pessoa muito querida. Ludmilla é muito próxima de sua família e se define como caseira ao extremo. “O que mais amo é ficar em casa com minha família. São os melhores momentos, em que me sinto completa”.

Trilha sonora para Rihanna

2019 foi um ano de muitas conquistas, reflete Ludmilla. Uma delas aconteceu em setembro, quando Rihanna, de quem é superfã, abriu o desfile de sua grife de lingerie, em Nova York, com a música “Malokera”. “Foi uma felicidade muito grande que eu não soube expressar na hora, fiquei sem palavras. Isso me fez ficar mais esperançosa e acreditar que eu posso chegar a lugares que eu nunca fui”, ela desabafa.

Ludmilla com sua mãe, Silvana; os irmãos mais novos, Yuri e Luane; e o amigo Marcos Araujo. Foto: Acervo Pessoal

Ainda neste ano, a cantora lançou seu primeiro DVD, “Hello Mundo”, ganhou o Show dos Famosos no Faustão, gravou com a rapper americana Cardi B; se apresentou no Rock in Rio ao lado da Funk Orquestra, foi a primeira artista negra a ganhar o Prêmio Multishow na categoria de melhor cantora e assumiu publicamente o namoro com a bailarina Brunna Gonçalves. Não ter que esconder mais sobre o seu relacionamento foi libertador.

“No início nós ficamos com aquele receiozinho de assumir, mas logo depois veio o alívio de poder ser livre para ser quem somos”. A cantora reconhece que é vista como uma inspiração para muitas mulheres negras e LGBT: “Eu gostaria de dizer para essas mulheres confiarem no potencial delas. Para conhecerem quem elas são e não mudarem suas vidas por causa de ninguém. São completamente poderosas”.

Emoções com o prêmio

Empoderamento, amor, luta e liberdade. São esses os valores que Ludmilla quer passar em suas músicas. “Minhas canções representam uma comunidade, inspiram pessoas e passam mensagens importantes. Para mim, a música é um elemento transformador, que pode tocar o coração, emocionar e libertar. Ela mudou minha vida e o que espero é que meu trabalho também promova isso na vida de outras pessoas”.

Sua participação no Show dos Famosos, no programa Domingão do Faustão. Foto: TV Globo / Divulgação

Ao ganhar o Prêmio Multishow de melhor cantora de 2019, no dia 29 de outubro, Ludmilla caiu no choro. Não só pela emoção, mas também por ter sido surpreendida por algumas vaias. “Essas lágrimas são de uma luta muito longa, que estava presa dentro de mim. Eu não esperava isso nunca. Mas eu só queria dizer para todas as meninas, para todas as mulheres, para todas as pessoas periféricas: nunca, nunca mesmo, deixem ninguém falar o que vocês são ou o que podem ser na vida. Se vocês têm um sonho, por favor, lutem como uma garota e vão atrás dele, porque vão conseguir. Eu queria agradecer aos meus fãs, a minha família, a todo mundo e até as vaias de vocês também: obrigada pelas vaias. Elas me fazem sempre pensar no que eu gostaria ou não que fizessem com as pessoas”, esse foi o seu discurso de agradecimento.

2020 está chegando e, com ele, vem muitas novidades. No Réveillon, Ludmilla vai pular as sete ondas para garantir seu sonho de conseguir um feat com a Beyoncé e, quem sabe, com a Rihanna também. Ela abre o ano como apresentadora do programa “Só Toca Top”, da Globo, irá lançar seu primeiro EP de pagode, e promete parcerias internacionais. “Eu vou continuar quebrando muralhas e barreiras, porque eu tenho sonhos e são eles que me movem”.

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