Mobilidade: Grupo Metrópole Fluvial busca transformar os rios paulistas em hidrovias ativas

Foi a partir do início do século 19 que os governantes brasileiros passaram a ver os rios como obstáculos ao progresso. A nossa urbanização foi feita de costas para os rios, usados como banheiro. Com o tempo, se priorizou cada vez mais o espaço para carros, desprezando a importância das águas correntes para as cidades. Em São Paulo, o rio Tamanduateí foi o primeiro a ser canalizado. Seguiram-se muitos outros que foram retificados, enterrados e esquecidos.

Fotomontagem do Canal Pinheiros na altura da raia olímpica da USP. Foto: Divulgação

Estima-se que São Paulo tenha de 300 a 500 rios embaixo dos nossos pés, sob ruas, casas e edifícios. São, de acordo com a iniciativa Rios e Ruas, que desde 2010 mapeia o ciclo das águas subterrâneas da capital paulista, cerca de três mil quilômetros de rios, riachos e córregos sob o asfalto. “Queremos trazer os rios para perto do nosso olhar, é impossível cuidar do que não vemos”, diz o geógrafo Luiz de Campos Jr, da Rios e Ruas. A iniciativa tem expedições para sensibilizar as pessoas a respeito da proteção fluvial. Se esses rios enterrados corressem livres e limpos, a céu aberto, não teríamos as enchentes atuais, causadas pela impermeabilização do solo, entre outros fatores.

E os que estão visíveis, poluídos e repletos de esgoto, como os rios Pinheiros e Tietê? Para Alexandre Delijaicov, que coordena o Grupo Metrópole Fluvial, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, é preciso resgatar e integrar novamente os rios urbanos. A navegação fluvial é um dos sistemas mais baratos e limpos que existem e pouquíssimo usada no Brasil, dependente do transporte rodoviário.

O grupo desenvolveu um projeto para a construção de um hidroanel metropolitano e prevê a conexão e o pleno aproveitamento das hidrovias que circundam 14 cidades da Grande São Paulo, melhorando a mobilidade urbana, reduzindo a poluição e fazendo uso inteligente e sustentável das águas. Delijaicov estuda o assunto há mais de três décadas e se inspirou em países como Holanda, Alemanha, França, Estados Unidos e China, usuários de vias navegáveis para transporte de cargas e pessoas. Além dos ganhos econômicos, a pegada ecológica é expressiva. “Com a potência de um motor de caminhão podemos transportar, em uma embarcação, o equivalente a carga de 40 caminhões. E a proposta do Grupo Metrópole Fluvial é usar embarcações ‘autopropelidas’, com motores elétricos”, diz Delijaicov, lembrando que o transporte hidroviário pode ser 7 a 8 vezes mais barato que o rodoviário, e 3 a 4 vezes mais barato que o ferroviário.

O projeto, que estima uma redução de 30% no tráfego de cargas em São Paulo, prevê a construção de um ambiente urbano com uma infraestrutura que preserve as águas, ao mesmo tempo que oferece espaços públicos de convivência e lazer na orla fluvial. As embarcações seriam destinadas ao transporte de cargas e passageiros, como também ao lazer e passeios turísticos. Utopia? Isso já é comum em grandes cidades do mundo e é possível também aqui. Mas é preciso a união de todos – universidade, governos, empresariado e sociedade – para que seja concretizado. O ganho é imenso em todas as áreas, para as pessoas e a cidade.

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