No Brasil, adotar crianças mais velhas ou grupos de irmãos ainda é uma exceção

Douglas e Daniela Kohatsu com os seus filhos Daniel, Vitória, Jhonatan, Henrique e Mateus

Daniel chegou primeiro, ele tinha nove anos em 2015. Na época, o garoto contou para os pais adotivos, Daniela e Douglas, que seus quatro irmãos mais novos ainda esperavam para ser adotados em diferentes abrigos no Paraná. Então, eles começaram uma nova busca. Hoje, Vitória, de nove; Jhonatan, de sete; Henrique, de seis; e Mateus, de cinco, também formam a família Kohatsu. Cinco filhos entraram na casa dos dois personal trainers de Umuarama, no interior do estado paranaense, e assim o sonho da maternidade e da paternidade foi possível.

A história dos Kohatsu, infelizmente, não é comum no Brasil. O Cadastro Nacional de Adoção mostra um gargalo. De um lado, mais de 40 mil pais pretendentes a adotar. Do outro, menos de nove mil filhos em busca de uma família.

Apesar dos números parecerem favoráveis a elas, as crianças podem esperar por anos na fila. “O processo de adoção deve ser extremamente cuidadoso e requer tempo para ser concluído”, explica o juiz da Infância Iberê de Castro Dias, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Apresentação de documentos à Vara da Infância local e entrevistas com psicólogos e assistentes sociais fazem parte do processo de adoção, mas não é apenas por isso que os abrigos continuam cheios.

O juiz afirma que a maioria das pessoas indica um perfil muito restrito, deixando de fora as crianças maiores de oito anos, as com deficiência ou doença crônica e os grupos de irmãos. E essas características podem ser a maioria presente nos abrigos.

Atualmente, 88% das crianças prontas à adoção têm mais de oito anos e somente 4,5% dos pais pretendentes as aceitam. Assim, para quem não coloca essas restrições, o processo anda mais rápido ou até mesmo não há fila. “Quando resolvemos elevar a idade para até dez anos, recebemos uma ligação da Vara da Infância”, conta Douglas. A insistência em adotar uma criança de até cinco anos fez com que o casal esperasse por um ano antes de decidir que a idade não seria uma restrição. E logo veio o primeiro filho.

Sara Vargas, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção (Angad), ressalta que muitos projetos auxiliam a adoção tardia e fora do perfil preferencial. “Temos uma rede de busca ativa, procuramos famílias já habilitadas para a adoção e as orientamos com psicólogos e pedagogos sobre comportamentos que essas crianças podem ter e como o vínculo pode ser devidamente estabelecido”.

Sara afirma que os grupos de apoio estão espalhados pelo país e formam uma rede de especialistas, que inclui também pais que já adotaram e podem agregar muito com suas próprias experiências. A rede fica presente durante todo o processo e até mesmo após a adoção ser definida. “Isso prepara e ajuda muito os novos pretendentes”, diz.

O Tribunal de Justiça de São Paulo também lançou o projeto “Adote um Boa Noite”, em que pequenos perfis de crianças acima dos sete anos, adolescentes, crianças com deficiência e grupos de irmãos são mostrados aos interessados, estimulando com que as próprias crianças contem as suas histórias e os seus sonhos. “Com esse projeto de adoção tardia, 27 potenciais adoções desses grupos surgiram em fevereiro, e cinco já estão em processo”, conta Iberê.

Douglas e Daniela nunca pensaram que a experiência da adoção pudesse ser diferente de uma paternidade e maternidade biológica porque as crianças chegaram mais velhas e de uma vez. “Foi a forma como me tornei mãe e sou muito grata por isso”, ela afirma, toda orgulhosa de seu alegre quinteto, com os quais irá comemorar mais uma vez o Dia das Mães.

Pretensão dos pais adotivos

43.644
Pretendentes

77,79%
só aceitam crianças até cinco anos

17%
só aceitam crianças brancas

63,27%
só aceitam crianças sem doenças ou deficiências

64,27%
não aceitam irmãos

Realidade das crianças

8.599
crianças

73,48%
maiores de cinco anos

65,85%
negras ou pardas

25,68%
têm doenças ou deficiências

58,52%
têm irmãos

Fonte: CNA – Cadastro Nacional de Adoção – Conselho Nacional de Justiça 2018

Para saber mais: tjsp.jus.br/AdoteUmBoaNoite

angaad.org.br

3962
VISUALIZAÇÕES