Entre novos projetos e estreias, Barbara Paz evidencia sua energia criativa

Atriz estreia como produtora e diretora em um filme que é uma declaração de amor ao marido, o cineasta Hector Babenco, e se lança como roteirista em outros projetos. Fotos: Felipe Hellmeister

Com um café coado na hora e uma acolhida que veio a calhar em uma tarde fria, Bárbara Paz recebeu o time da 29HORAS para essa entrevista. Logo na entrada, os sapatos foram deixados na soleira da porta, como manda a tradição japonesa. No seu apartamento amplo e de pé direito alto, no centro paulistano, ela guarda suas paixões: livros, fotografias, telas, cartazes, discos, plantas, imagens e histórias. Entrar nesse espaço, o santuário da atriz, é respirar um pouco do universo poético de Bárbara, que vem crescendo e se reinventando no palco e na frente das câmeras há mais de vinte anos.

Aos 44 anos, Bárbara vive um momento especial, com o lançamento de dois projetos muito acalentados. O primeiro é o livro “Mr. Babenco – Solilóquio a Dois Sem Um” (Editora Nós), que traz poemas e conversas da atriz com o cineasta Hector Babenco, com quem viveu durante nove anos. O talentoso diretor faleceu em 13 de julho de 2016 aos setenta anos.

Coincidências do destino, o livro foi lançado no último dia 13 de julho na FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, evento onde ela conheceu o cineasta em 2007. O segundo projeto é o documentário “Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, que entrou na seleção oficial do Festival de Cinema de Veneza e estreia em outubro na Mostra de Cinema de São Paulo. “O filme conta a história do Hector, esse grande homem, cineasta e poeta que lutava desde os 38 anos contra o câncer. Era o cinema que o mantinha vivo”, diz Bárbara.

A atriz gaúcha de expressivos olhos verdes, que ama fazer yoga e curtir seu refúgio na Bahia, fala ainda de sua experiência como diretora de cinema, confessa que o amor é o seu oxigênio, revela a intenção de ser mãe e explica por que ama tanto atuar: “Ser atriz é descansar de mim mesma”.

Você lançou em maio o “Assédio.Doc”, documentário que traz o relato das vítimas do médico Roger Abdelmassih, condenado por abusar de mais de 50 pacientes. Como surgiu esse projeto?

O “Assédio.Doc” nasceu de uma participação que eu fiz como atriz na série de ficção “Assédio”, da roteirista Maria Camargo, que retrata as vítimas abusadas por Roger Abdelmassih. Eu conheci algumas dessas mulheres reais, fiquei chocada com as histórias e achei que elas queriam e precisavam falar. Eu ofereci para a Globo, eles adoraram e a gente fez esse trabalho muito delicado e necessário. É a história de seis mulheres que dão voz a muitas outras para denunciar esses torturadores. Dirigi essa série com o intuito de denúncia e de poder retratar essas mulheres.

Um livro e um filme sobre Babenco estão saindo agora. Como foi trabalhar com essas memórias nesse período de luto?

Difícil, mas a palavra luto para mim também é luta. Eu já perdi quase todo mundo na minha vida. Perdi meu pai aos seis anos, minha mãe, quando tinha 17. Muito cedo aprendi a lidar com isso. Com o tempo a gente vai evoluindo. O tempo traz essa maturidade, a conscientização do que é a morte. E foi muito bom fazer o filme e o livro, dois projetos de amor. O que você faz depois que amou uma pessoa, com quem dividiu a vida, e fica sem essa outra parte?

Quando o filme começou a ser feito?

Tudo começou lá atrás, há muitos anos. Acho que o Hector sentiu uma urgência de falar, pois vinha sofrendo com o câncer desde que tinha 38 anos. Quando ele fez “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), já havia descoberto a doença. Quando estava doente ele fez vários filmes, como “Brincando nos Campos do Senhor” (1991), na Amazônia, e ninguém sabia disso. Foi sempre tratado pelo Drauzio Varella e aos cinquenta anos se submeteu ao transplante de medula óssea que ele retrata no filme “Meu Amigo Hindu” (2015).

Hector Babenco e Barbara Paz

Você filmou, dirigiu… Como aconteceu esse processo?

Digo que foi uma universidade fazer esse documentário, porque virei roteirista, diretora e produtora da noite para o dia. Metade do filme eu banquei, a outra eu fui atrás de patrocinadores. Fazer não foi apenas uma promessa, mas uma homenagem a esse homem que eu admiro e que acreditou em mim. Ele me incentivava a filmar e sempre me dizia: “Você pode, você não precisa de ninguém, acredita. Confia em seu olhar!” Assim, eu quis transformar o meu amor por ele em uma poesia na forma de filme.

E como surgiu o livro?

O livro é parte de tudo o que a gente gravou para o filme juntos, das nossas conversas. Depois que ele partiu, eu comecei a organizar as conversas e achar lindo aquilo escrito. Ele partiu no momento em que a gente estava corrigindo essa letra. É o “Solilóquio a Dois sem Um”. O Hector já estava na morfina e ainda corrigiu 40% dos poemas que a gente escolheu para publicar: escritos que eu descobri numa caixa que ele guardava desde a adolescência. A criação o mantinha vivo.

Tem outros projetos para este ano?

Uma peça que eu até havia esquecido (ela ri)… Nossa, já vai estrear em outubro! Eu volto ao teatro na peça “Misery, Louca Obsessão”, baseada no livro de Stephen King. É uma produção do teatro Porto Seguro.

Mais uma personagem complexa e perturbada?

Sim (risos), na tevê fiz a bipolar Nelita, de “A Regra do Jogo”; a Renatinha, de “Viver a Vida”, que sofria de anorexia alcoólica, além de muitas vilãs, como a Edith de “Amor à Vida”. Agora eu penso que tenho que fazer personagens menos esquisitos. Gostaria de tentar papéis cômicos em novelas. No teatro já fiz muita comédia.

Que personagem marcou você?

Tantas… A Renatinha, de “Viver a Vida”, do Manoel Carlos, foi importante porque eu entrei na casa onde queria trabalhar, foi o meu primeiro papel na Globo depois do SBT. Mas antes, no teatro, eu fiz um clássico do Oscar Wilde, “A Importância de Ser Fiel”. Essa peça foi um turning point na minha vida, após a minha passagem na “Casa dos Artistas”, em 2001.

Como foi a experiência na “Casa”?

Eu já tinha uma carreira de teatro quando participei desse reality, no SBT, mas foi nele que eu me tornei uma pessoa pública. Foi uma estrada muito diferente e que me deu coisas boas. Essa casa aqui é a “Casa dos Artistas”: eu comprei com o dinheiro que ganhei. Por outro lado, ficou muito difícil desconstruir a imagem da Bárbara que apareceu para o grande público. Mas aos poucos eu consegui mostrar que era uma atriz. Para eu voltar a ter credibilidade depois de uma experiência muito popular, com muita audiência, eu retornei ao teatro fazendo Oscar Wilde durante três anos. Essa escolha me salvou como atriz.

A atriz na peça “Hell”

Quem é a Bárbara Paz?

Boa pergunta. Eu costumo fazê-la no programa “A Arte do Encontro” aos meus entrevistados. E agora você me faz. Eu não sei. Eu continuo em busca de saber quem é a Bárbara, onde ela está, porque eu sou muito inquieta. Acho que essa incerteza pode nos tornar melhores. O que eu sei é o que me dá prazer de me sentir viva. Sei que gosto muito da vida, e ela passa muito rápido, por isso tento fazer as coisas que um dia eu sonhei. Eu quero realizar tanto ainda.

O quê, por exemplo?

Eu quero fazer um outro filme, um filme meu, de ficção; eu quero ter um filho, vários filhos. Ainda dá tempo, mas se eu não gerar eu vou adotar, quero dar continuidade à minha vida. Eu não me dei esse tempo e agora eu quero. Eu vivo muito intensamente cada etapa. E quero amar mais – sou bem melhor amando.

Um dia feliz para você?

(Risadas). Ai, Jesus. Para mim um dia feliz é acordar no meio do mato, perto do mar, de preferência no meu esconderijo na Bahia, que eu amo. Quando acordo eu fico em silêncio, rezo. Até os 17 anos eu fui à igreja todo domingo, mas hoje eu me considero budista, acredito em uma energia maior que está dentro da gente.

Como você vê a passagem do tempo?

Por mais que eu saiba que nós somos finitos, eu nunca acho que o tempo vai acabar. O tempo tem que ser nosso aliado, temos que trazê-lo para dentro de nós, para o nosso melhor. E amadurecer é maravilhoso. Quando eu vi a peça “Longa Jornada de um Dia Noite Adentro”, com a Cleyde Yáconis, eu fiquei tão maravilhada que falei que queria envelhecer só para fazer essa peça, porque tem que ser uma atriz velha para fazer. Acho que os melhores personagens ainda virão, porque com o tempo os papéis no teatro vão ficando melhores. Eu tenho 44 anos e é como se eu fosse uma guria. O tempo passou e eu não vi…

Você prefere atuar como atriz ou como diretora?

Ser atriz é descansar de mim, o que eu nasci para fazer. Já a direção eu adoro, porque você pode coordenar tudo como um maestro. Levo muito a sério a direção, mas não vou conseguir viver sem atuar, é meu grande aliado nessa vida.

Qual é a importância da arte e da cultura na sua história?

Imensa. Como diz Fernando Pessoa, “a arte é uma confissão de que a vida não basta”. Imagine se eu não tivesse a cultura na minha vida… Quem eu seria, se eu fui me educar sozinha, se meus pais já não estavam vivos? Se eu não tivesse ido ao teatro, se eu não tivesse estudado, lido todos os poetas e filósofos que eu li? Eu fui atrás da minha educação e de me encontrar como ser humano. Eu fui educada pelo Sesc, pela minha formação no teatro, ele me deu a minha grande escola.

Você é gaúcha, mas veio morar aos 17 anos em São Paulo. Qual é a sua relação com a cidade?

Adoro São Paulo, que me deu tudo, abriu os braços feito Cristo para mim, desde que eu cheguei. Mas eu também fui atrás, não fiquei parada. Bati na porta do Antunes filho, entrei, fiquei, fui buscando todos os cursos que mexiam comigo. Eu sempre transformei minha vida. O que me move é o amor. É o meu oxigênio. Se você está amando o próximo, dividindo, a vida faz sentido. O ser humano nasceu para procriar amor, e isso não é autoajuda.

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