Paula Pfeifer, escritora que recuperou a audição com a tecnologia, trabalha para aumentar número de “surdos que ouvem”

“A surdez é uma jornada solitária e assustadora”, define a escritora Paula Pfeifer. A gaúcha nasceu ouvindo, era encantada pelo som do mar, do vento que vinha do Norte e pelo canto dos pássaros. Aos poucos, tudo começou a soar mais baixo até que em um certo momento o seu mundo emudeceu.

Paula Pfeifer é escritora e blogueira

Autora do projeto “Surdos que Ouvem”, Paula trabalha para promover reabilitação auditiva

Muitas barreiras surgiram. Ainda menina, via-se cada vez mais distante de quem conversava com ela. Afastada das vozes, aprendeu a ler lábios e se empenhava para disfarçar seus problemas de audição. Aos 16 anos, recebeu o veredito do médico: estava surda. “Fiquei me sentindo péssima e escondi de todos o máximo que pude. Acho que nesse dia entrei no armário da surdez”.

Embora tivesse saudade de ouvir as pessoas que amava, e até mesmo de barulhos singelos, como a chave girando na porta, Paula fugia da reabilitação auditiva. Em parte, porque tinha vergonha de que a vissem com os aparelhos no ouvido.

Já formada em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Maria, Paula escolheu uma profissão em que não precisasse se comunicar muito. Prestou concurso e tornou-se técnica do Tesouro do Estado do Rio Grande do Sul, onde ficou de 2002 a 2014.

Em 2010, iniciou um projeto que mudaria a sua vida e a de milhares de pessoas. O blog “Crônicas da Surdez”, onde relata suas experiências e compartilha as vivências de seus leitores. “O blog foi fundamental para eu quebrar a ideia de que era a única azarada no planeta passando por isso.

São 460 milhões de pessoas na mesma situação. E a jornada da surdez é igual para todo mundo, envolve sentimentos universais como medo, raiva, negação, luto e tristeza”. Os relatos foram compilados no livro de mesmo nome, lançado em 2013.

Em 2015, houve o lançamento de “Novas Crônicas da Surdez: Epifanias do Implante Coclear”, que conta as histórias de surdos que voltaram a ouvir graças à tecnologia. Entre eles a própria Paula. “Recuperar a audição em 2013 por meio da cirurgia de implante coclear foi como ter fi cado em uma cadeira de rodas por mais de vinte anos e um belo dia poder levantar e sair correndo”, ela descreve. “Nunca alimentei o sonho de que voltaria a ouvir e cá estou, completamente surda e ouvindo”.

Autora do projeto “Surdos que Ouvem”, que foi premiado pelo Facebook Community Leadership Program com US$ 1 milhão, Paula trabalha para promover a reabilitação auditiva e quebrar paradigmas e preconceitos. “Quero mostrar que a surdez é invisível, mas nós não”. Hoje ela se sente feliz por ter conseguido transformar sua solitária experiência em uma rede de apoio. Todos os dias é lembrada com mensagens de agradecimento, vindas dos quatro cantos do país. Mas a fonte maior de conforto é ouvir a voz do seu filho, Lucas, de um ano e meio, e a de seu marido, o médico Luciano, chamar o seu nome.

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