Rádio Vozes: A Itália na música brasileira

Elis Regina e Adoniran Barbosa

Quando você pensa em uma possível conversa entre a música italiana e a brasileira o que vem primeiro à cabeça? Para mim, é o encontro de Elis Regina e Adoniran Barbosa cantando “Tiro ao Álvaro”. Uma obra-prima do samba paulistano, cheia de bom humor e de balanço.

Adoniran talvez seja o maior representante da cultura italiana na nossa música. Sua história começa no rádio, nos anos 1930, como um personagem que virou o nome artístico de João Rubinato, ator e comediante nascido em Valinhos, sétimo filho de um casal de imigrantes italianos, claro!

O personagem Adoniran, o comediante do rádio, foi fundamental para a construção do compositor. Seus sambas são crônicas de uma época em que São Paulo crescia rapidamente, e esse jeito de cantar “errado” foi a forma que ele encontrou para falar diretamente com a população trabalhadora, da qual ele mesmo fez parte.

Mas não é só de humor e “italianês” que é feita a obra desse grande compositor. Adoniran também fez a maravilhosa “Bom Dia, Tristeza” em parceria com Vinicius de Moraes, cantada por Maysa e Aracy de Almeida.

Foi gravada também por Elis, Clara Nunes, Gal Costa, Rita Lee, Djavan e Jards Macalé. Seus sambas mais conhecidos fazem parte do repertório do delicioso grupo Demônios da Garoa desde os anos 1950. “Saudosa Maloca”, “Samba do Arnesto”, “Trem das Onze”, maravilhas do nosso cancioneiro.

E já que o nosso tema do mês é a Itália, vale lembrar que alguns de nossos maiores ícones da música popular já gravaram discos inteiros em italiano. Chico Buarque, exilado, gravou em 1969 e 70 dois discos por lá. Vinicius e Toquinho nos anos 1970 fizeram muitos shows registrados em disco. A obra infantil “A Arca de Noé” ganhou uma versão inteira em italiano em 1972. Disco lindo e raro.

No final da década de 1990, Zizi Possi gravou o lindo álbum “Per Amore”, um sucesso enorme nesse país cheio de filhos, netos e bisnetos de italianos. O disco tem lindos arranjos de orquestra assinados por Dori Caymmi e clássicos da canção italiana escritos por Lucio Dalla, Domenico Modugno e Pino Daniele. A faixa título é de Mariella Nava, cantora e compositora contemporânea.

E Caetano Veloso fez mais uma maravilha em 1997 com seu “Omaggio a Federico e Giulietta”, um disco lindo gravado em Rimini, na Itália, cidade natal de Federico Fellini. Grande admirador do cinema, ele compôs “Giulietta Masina”, gravada em 1987, e foi convidado para cantar em homenagem ao casal no aniversário de Federico. O disco tem arranjos de Jaques Morelenbaum e um repertório primoroso. Imperdível! Esse eu recomendo inteiro.

Abra um bom Montepulciano, um primitivo ou um orgânico da Sicília, cozinhe a pasta e se delicie com nossa seleção musical ítalo-brasileira!

Boa viagem!

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