Rádio Vozes: Como você ouve música? Atenção aos detalhes torna a experiência melhor

Lembra da última vez que você colocou um disco para tocar?

Parece uma pergunta boba, mas tem feito parte do meu cotidiano pensar nisso depois que criei uma rádio digital. Com os serviços de streaming cada vez mais acessíveis, aquele velho hábito de ouvir um disco quase desapareceu.

Qual foi o último disco que você ouviu inteirinho? Olhando para a ficha técnica, a arte da capa? Tempo, tempo, tempo…Toda sexta-feira temos lançamentos digitais. Você acompanha?

Uma boa notícia é que os vinis estão voltando com muita força. Quase como uma resposta a esse movimento de ouvir música sem saber quem está cantando. Há pequenos selos se organizando para relançar raridades, e artistas novos trazendo o vinil como parte de sua estratégia de divulgação.

Ainda assim, qual foi a última vez que você colocou um disco para ouvir? Não precisa ser um vinil. Vamos pensar no álbum de Adriana Calcanhotto, “A Mulher do Pau Brasil”. Você percebeu a narrativa? Percebeu a letra arrebatadora, necessária, poderosa e provocadora de “Ogunté”? Crianças encalhadas, o plástico do mundo no peixe da ceia, caixas pretas no fundo do mar… E o arranjo? A métrica? O ritmo potente do poema que lembra um Wally Salomão já tão cantado por ela.

E o novo disco de Jards Macalé? Ainda é só digital. Mas já temos muita informação sobre as novas canções do autor de maravilhas como “Vapor Barato” e “Movimento dos Barcos”. Falemos, por exemplo, das parcerias com Ava Rocha, Tim Bernardes e Rodrigo Campos, três artistas jovens e talentosos que agora criam com uma de suas maiores referências.

Mas não preciso falar só de lançamentos. Já que ouvir música é um hábito afetivo, que tal lembrar daquele LP tão importante na sua vida e que poderia te trazer aquelas boas e velhas sensações da primeira escuta… Eu ouviria um Caetano antigo. O “Qualquer Coisa”, por exemplo. Disco de 1975. Lado A, faixa 2: “Da maior Importância”. Uma conversa cantada, só com o violão de Perinho Albuquerque acompanhando a voz macia de Caetano Veloso.

Um violão percussivo que acentua perfeitamente o que a letra propõe. Lado A, faixas 3 e 4, uma sequência primorosa de “Samba e Amor”, de Chico Buarque, e “Madrugada e Amor”, de José Messias. As duas canções conversam entre si e me levam para a nostalgia das noites de verão na rede da varanda, calor e brisa, romance inventado. Leio que “Madrugada e Amor” foi ouvida no rádio por Caetano ainda menino, em Santo Amaro da Purificação. Fica tudo ainda mais bonito.

Escrevo para dizer isso. Se dê de presente ouvir música assim, como antes. Com atenção. Com tempo. Faça da música a sua companhia. As canções têm muita história para contar.

Boa viagem.

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