23h às 29h: Rua Guaicuí é o novo ponto de bares descolados

Fachada do Pitico, o primeiro bar a abrir na Guaicuí

Querido leitor,

Como você está? Espero que bem. E espero que entenda os meus motivos para escrever esta coluna em forma de carta. Era tão comum fazermos isso na minha época, especialmente quando queríamos mostrar afeição pelo destinatário. Sabe, eu e o meu falecido marido, o Alfredo, trocamos muitas cartas ao longo da nossa linda história de amor. Algumas eram bem românticas. Outras, temo que seriam de conteúdo impróprio para mostrar aqui nesse espaço. De qualquer maneira, quis escrever esta coluna em forma de carta pois sinto que estamos passando por um momento tão delicado em nosso país. Vi nessas eleições tantas pessoas próximas brigando: amigos, famílias, vizinhos.

Tudo por causa de políticos. Fico preocupada quando as pessoas param de conversar. Quando as pessoas enxergam o próximo como um inimigo.

Confesso que fiquei um pouco triste com essa polarização. E se você me conhece, leitor, já deve imaginar o que fiz para combater a tristeza: sim, saí para a noite. Dessa vez, fui para os lados de Pinheiros, em uma ruazinha em específico, a Rua Guaicuí.

Não deve dar mais do que uns cem passos para você conseguir percorrer toda ela. E quanto coisa para se fazer em um espaço
tão curto de asfalto. Logo no começo tem o bar Capivara, que atrai com seus preços honestos. Temos o Pitico, protagonista, o primeiro da rua, famoso pelos sanduíches de falafel, gim-tônica e cadeiras de praia.

Também conheci uma hamburgueria, Bigorna, uma espécie de food truck com opções deliciosas de hambúrgueres e cerveja I.P.A da casa. Ali do lado, tem ainda um hostel de nome Garoa e tive a felicidade de ver alguns estrangeiros.

Mas, mais do que tudo isso, o que me fascinou na Rua Guaicuí foi o seu espírito. Além de botecos e bares de sobra, a rua fica ocupada pelas pessoas. Vez ou outra um carro intrometido chega a passar, mas dá para perceber que aquela
travessa virou das pessoas. Dos jovens.

Garoava na noite em que visitei. As lâmpadas coloridas presas em cordões, como as de festa junina, pincelavam a rua como uma aquarela. A garoa engrossou, virando chuva. Mas as pessoas estavam felizes demais aproveitando aquela madrugada para se preocupar em se molhar.

Termino de escrever aqui sem saber o resultado dessas eleições. Espero apenas que, independentemente do que acontecer, todos consigam se unir e se entender depois desse período tão conturbado.

Beijos!

Lourdes de Sá tem 74 anos, é funcionária pública aposentada e avó de três jovens. Gosta de sair e se intitula uma “notívaga compulsiva”.

donalourdes@yahoo.com

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