Por que Shazam! é um marco no universo cinematográfico da DC

Em Shazam!, o humor e família são o destaque. Foto: Divulgação

Quando David F. Sandberg, diretor renomado de longas de terror (Annabelle 2: A Criação do Mal, Quando as Luzes se Apagam), foi escalado para dirigir Shazam!, é indiscutível que todos pensaram que a DC optaria por manter o tom sombrio em seus filmes. Para nossa surpresa (e gratidão), foi completamente o oposto.

Em Shazam! os tons sombrios, vilões macabros e cenas longas de lutas são deixados de lado e a comédia, aventura e fantasia entram em cena. Afinal, com uma história leve, seria no mínimo contraditório não manter o filme com um tom leve também. Aqui a comédia e o humor infantil são postos em cheque, e o filme acerta no que propõe ser: divertido e despretensioso.

A pergunta principal é: como um jovem de 14 anos agiria se ganhasse poderes? A escolha é por retratar as ações de Billy Batson (Asher Angel) de uma forma extremamente inocente e boba, mas é por isso que funciona. Até a reta final do filme não há nenhum senso de responsabilidade no herói. Aliás, não há nada que remeta a um herói em Billy. O que é visto é exatamente o que Henry Gayden (roteirista) e Sandberg querem mostrar: um adolescente curtindo seus novos poderes. E isso é retratado de forma perfeita principalmente pela atuação de Zachary Levi (Shazam), que abraça muito bem o caráter bobo do filme.

Uma prova disso são as cenas de ação. Até o confronto final, não vemos Shazam em cenas heróicas, a exemplo de Batman e Superman, em seus respectivos filmes. O primeiro confronto entre o herói e Dr. Sivana (Mark Strong) é uma luta banal, se é que pode se chamar de luta. A proposta aqui não é por algo épico. Poderoso ou não, Billy ainda é apenas um jovem e obviamente agirá como tal.

Shazam/ Billy e Sivana: ambos foram “abandonados” na infância. Foto: Divulgação

Outros grandes temas do filme também são o abandono e a família. Billy Batson perde-se de sua mãe enquanto seus “irmãos” foram abandonados. Já Sivana é rejeitado desde sua infância por seu pai. As consequências desses fatos são vistos no caráter de ambos herói e vilão, mas também são muito presentes nos irmãos. Aqui, não são fracos e abandonados e sim fortes e independentes, em muitos casos, e estão sempre unidos. Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), a adorável Darla Dudley (Faithe Herman), o gamer Eugene Choi (Ian Chen), a inteligente Mary Bromfield (Grace Fulton) e o forte Pedro Peña (Jovan Armand), junto com o casal Rosa (Marta Milans) e Victor Vasquez (Cooper Andrews), formam uma família acolhedora, ensinando o público sobre a diversidade e aceitação.

O destaque no filme é justamente essa interação entre os “órfãos”. As cenas entre Billy/ Shazam e Freddy são as melhores do longa e exibem a influência – previamente anunciada por Sandberg – de Quero Ser Grande (1988) na criação da história.

A interação entre Billy (Asher Angel) e Freddy (Jack Dylan Grazier) reserva o melhor do filme. Foto: Divulgação

Não há uma figura adulta explicando o que é responsabilidade ou o que é ser um herói. Uma comparação possível é com Homem-Aranha. Na trilogia com Tobey Maguire, o tio Ben se torna essa figura com sua frase memorável – “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Já na versão mais recente, com Tom Holland, Tony Stark (Robert Downey Jr.) é responsável por assumir esse papel e mostrar para o jovem o que é ser herói. Em Shazam! a questão de responsabilidade é tratada de outra forma justamente por conta dessa ausência. Billy e Freddy precisam entender sozinhos o que significa ser um herói e quais são seus deveres. Sendo assim, é necessário que esse processo de aprendizado se alongue mais, resultando em um maior tempo de tela para os dois, em detrimento a menos cenas de ação.

É lógico, no entanto, que o filme não é perfeito. A abertura é longa demais. Na tentativa de mostrar a história de origem de Dr. Sivana, Sandberg se alonga em um drama não tão necessário para a história. Aliás, o próprio vilão é questionável. Embora Mark Strong entregue o que é esperado de um ator de seu calibre, o personagem é feito de uma forma superficial. Suas motivações, embora nítidas, não são inteiramente justificáveis e acabam por deixá-lo um tanto quanto previsível.

Após Mulher Maravilha e Aquaman, Shazam! é mais um acerto da DC – um passo no caminho certo. Divertido, emocionante e surpreendente, o filme não é um top de bilheteria, mas mostra que Warner/ DC aprenderam com os erros do passado. Assim, com um tom mais leve, o estúdio vai aos poucos se afastando do clima pesado visto nos filmes de Zack Snyder (Batman v Superman, Homem de Aço) e traçando novas possibilidades para o universo da DC.

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