Maior cidade da Suíça, Zurique se destaca por sua essência e diversidade

Vista para os Alpes, vocação cosmopolita e tino comercial são apenas algumas qualidades de Zurique

O desembarque na estação central de Zurique assusta. O vaivém de centenas de pessoas das mais diversas partes da Europa e do mundo me faz questionar se eu realmente estava na pacata Suíça. O país não me era estranho, pois já havia estado ali quase uma dezena de vezes, mas a cidade era inédita. A poucos metros – literalmente do outro lado da rua –, ao Sul da estação, o Schweizerhoff Hotel foi uma grata surpresa logo no início. As quatro estrelas apresentadas na fachada merecem mais uma companheira.

As dezenas de dobras do mapa de bolso da cidade, quando aberto, mostram a grandeza de Zurique. A diminuta, mas mais importante cidade da Suíça, estende-se por 92 quilômetros quadrados (Paris, por exemplo, tem 105; Nova York, 783; e São Paulo, 1.521). É difícil decidir um destino com tantas opções. São mais de 100 galerias de arte, 50 museus e mais de dois mil restaurantes de todos os lugares do mundo. A cidade abriga moradores de 169 nacionalidades.

Deixar o hotel e virar à direita me leva à Banhoffstrasse, rua que recebeu esse nome por ligar o lago de Zurique à Banhoff, estação central da cidade. Ela se estende por cerca de uma milha e é um dos endereços comerciais mais caros da Europa. Não por acaso, as mais importantes grifes do mundo estão por ali.

Aparelhos eletrônicos da Apple, costumes Ermenegildo Zegna, couros Hermès e relógios com valores de seis dígitos da Vacheron Constantin. Múltipla e singular, ela deve ser apenas o caminho de passagem nas primeiras horas do dia. Deixe as compras para o anoitecer, sem esquecer que o dia termina cedo por lá: às 19 horas, as portas já estão fechadas.

Na parte leste da Banhoffstrasse estende-se a cidade velha, com ruas íngremes e estreitas. Em meio a pequenos comércios de artesanato, lojas de antiguidades, livrarias e floriculturas, encontram-se joalherias, marcas de renome internacional e trendy shops.

Os arredores de Banhoffstrasse, um dos endereços mais caros da Suíça

Entre uma vitrine e outra nas ladeiras de paralelepípedos, importantes marcos da história da cidade, que datam de mais de dois mil anos. Se aqueles muros e pedras falassem, contariam, ao chegar na simpática praça Lindenhof, no topo da montanha de mesmo nome, à beira do rio Limmat, todas as transformações que a cidade aos seus pés já viveu.

Reserve pelo menos três horas para explorar sem pressa a região. Vale visitar as quatro igrejas que ajudam a contar a história da velha Zurique e atravessar a Rathausbrücke, conhecida localmente como Gmüesbrugg (em português, a Ponte dos Vegetais). Ela já cumpria sua função de mercado na Idade Média e hoje conta com barracas que oferecem frutas, legumes e flores.

Se esse passeio pelo mercado local abriu o apetite, aproveite e conheça ali pertinho o charmoso hotel Widder, um dos poucos hotéis cinco estrelas de Zurique. Seu restaurante é surpreendentemente diferente: os pratos não são divididos por entradas, pratos principais e sobremesas, mas sim categorizados pela experiência que fornecem, como pratos com coentro, trufados, com anis ou apimentados. Escolha uma única temática, ou viaje por diversas delas, como sugerem os próprios garçons.

A menos de três minutos de caminhada, Limmat, o rio que corta Zurique e é responsável, em parte, pelo desenvolvimento da cidade, nos convida para um passeio. No verão, as amenas temperaturas favorecem um banho naquelas águas. Além de
nadar em piscinas públicas instaladas dentro do rio, como um cercado, as pessoas gostam de flutuar pelas águas deixando-se levar pela correnteza, uma experiência deliciosa.

Cenário contrastante

Limmat, o rio que corta Zurique e que dá vida à cidade

A pouco mais de três quilômetros dali, chega-se a Zurich West – a parte oeste da cidade contrasta duramente com a região central, no melhor sentido das palavras. Essa área industrial passou a abrir espaço para modernas construções que ocupam os antigos edifícios. Com sorte, é possível presenciar trens de carga deixando algumas das poucas fábricas ainda em funcionamento. Eles cruzam ruas e parques até alcançarem as linhas principais, que os levam aos mais diversos destinos da Europa.

Símbolo dessa modernização é Toni-Areal, antiga fábrica de iogurtes que chegou a ser a maior indústria de laticínios da Europa, com capacidade de processamento de um milhão de litros de leite por dia. Hoje abriga a Universidade de Artes de Zurique, um museu, lanchonetes e residências estudantis. É aberto ao público e a entrada é gratuita.

Quase em frente ao prédio e acessado por uma passarela de linhas modernas, Pfingstweid Park oferece um pouco de verde aos tons de cinza da região. A área era usada como pasto, já foi um clube de jardinagem e, atualmente, é um respiro verde para os moradores da área. Caminhar lado a lado com os trilhos e adentrar as ruas cinzentas nos leva a Prime Tower, mais alto prédio de Zurique, com um bar em seu rooftop e visão que vai além das fronteiras da cidade. Cerca de 200 metros à frente, sob um complexo de pontes, encontra-se a área mais berlinesa (sim, de Berlim) de Zurique.

Ao seguir pela Geroldstrasse,nota-se a diversidade que vai além do estereótipo suíço. Paredes grafitadas trazem lembranças de Berlim, especificamente do muro e suas artes coloridas. Em segundo plano, uma torre de contêineres guarda a loja Freitag, marca suíça de bolsas e acessórios feitos em lona reciclada.

O antigo bairro industrial de Zurique tem cafés, restaurantes, bares, lojas e muita arte, em um antigo viaduto restaurado e muito moderno

Ela se estende pelos quatro primeiros pisos. Do quinto ao nono, uma escadaria metálica leva ao topo da torre, que fornece uma visão menos elevada que Prime Tower, mas gratuita, da região. Ali perto, Im Viadukt, linha suspensa de trem datada de 1894, hoje abriga sob seus arcos algumas dezenas de empreendimentos comerciais, gastronômicos e culturais.

O trajeto de cerca de 500 metros ganha um charme especial ao anoitecer, com a formação de fi las para os eventos culturais e a diversidade de lojas que valorizam os produtores locais. Nos arredores, muitos são os edifícios industriais ocupados por escritórios, residências e até casas noturnas e restaurantes. A cor predominante é cinza, mas, logo à frente, o verde esmeralda do rio que nos trouxe até ali toma conta de nosso olhar. Zurique é mesmo surpreendente.

Para quando você for:

Hotel Schweizerhoff Zürich – hotelschweizerhof.com/en

Widder Bar & Kitchen – widderhotel.com/en

Toni-Areal – zhdk.ch/en

Prime Tower – primetower.ch/en/dining

Freitag Flagship Store – freitag.ch/en

Im Viadukt – im-viadukt.ch/en

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