Vozes da nova era: cinco mulheres sustentáveis e inspiradoras

Reunimos na Horta das Corujas, um espaço comunitário, lindo e muito verde na Zona Oeste paulista, cinco brasileiras: as executivass Rachel Maia, Karine Bueno e Macia Hirota, a nutricionista Alessandra Luglio e a empreendedora Chiara Gadaleta. Cada uma a seu modo contribui para tornar o Brasil e a sociedade mais sustentáveis e mais justos.

Rachel Maia

Fundadora de um projeto social que capacita jovens para o mercado de trabalho, a executiva Rachel Maia tem a educação como sua bandeira.

No dia em que foram feitas as fotos desta matéria na Horta das Corujas, Rachel Maia havia acabado de assumir o posto de CEO da Lacoste Brasil. Mesmo assim, ela conseguiu escapar para se juntar ao grupo, colocar os pés na terra e refletir sobre sustentabilidade e diversidade, temas caros para essa executiva que já foi CEO de diversas marcas de luxo, como a Tiffany & Co e a rede de joalherias Pandora. “Acredito que essa consciência ou vem de forma natural ou de forma induzida. E toda oportunidade que tenho para falar desses valores eu aproveito. Trazer executivos para esse universo é fantástico”.

Paulistana formada em ciências contábeis, pós-graduada na USP em finanças e com cursos de especialização em Vancouver e Harvard, Rachel compara a diversidade à inovação. “Uma empresa que acolhe pessoas de pensamento diverso é inovadora, criativa, transformadora. E isso em relação a tudo: etnia, gênero, idade, orientação sexual, condição física. A diversidade é enriquecedora pois traz novos olhares e pensamentos e isso é muito importante”.

Em suas palestras, ela costuma pedir para que as pessoas meçam a diversidade na sua vida de forma genuína. “Se você tem um círculo de amigos e eles são muito parecidos com você, a roda não é diversa. Se apenas 15% do quadro executivo das empresas globais são mulheres, a coisa está desbalanceada”, observa Rachel, com a experiência de quem teve que superar mil e uma barreiras para chegar onde está.

“Represento 0,4% do universo de presidentes que são mulheres negras”, ela ressalta. “Realmente precisamos trabalhar, e isso é no mundo todo, questões étnicas, sexistas e diferenças salariais que afetam mulheres e negros, para que haja justiça social. Isso se chama sustentabilidade”.

Fundadora do projeto Capacita-me, que leva educação e empregabilidade a pessoas na linha de vulnerabilidade social, Rachel diz que seu objetivo é mostrar aos jovens que o conhecimento é poder. “Eu mostro que a educação é mola propulsora para a virada e uso minha influência com outros executivos e presidentes para inseri-los no mercado de trabalho. Literalmente, meto a cara de pau e peço emprego para eles”. O Capacita-me formou cem pessoas em 2018 e Rachel pretende dobrar o número em 2019. “Estou aqui para inspirar”.

Karine Bueno

À frente do banco Santander, Karine Bueno mostra que a sustentabilidade não é apenas um negócio possível para empresas e instituições, ele é também muito rentável.

Superintendente Executiva de Desenvolvimento Sustentável do Banco Santander no Brasil, Karine acredita que o período em que as empresas faziam filantropia passou, agora todos precisam planejar projetos que minimizem impactos negativos de suas ações e ampliem a oportunidade de crescimento sustentável. É o que o Santander faz há mais de vinte anos.

Sustentabilidade é uma tradição no banco, que foi considerado, em 2012, “o banco mais verde do mundo” pelas consultorias independentes Interbrand e Deloitte. Segundo Karine, isso se deve à integração da sustentabilidade ao modelo de negócio da instituição. “Além de promover soluções financeiras que ajudam a proteger o meio ambiente, como o financiamento de projetos de energia renovável, o Santander minimiza o impacto ambiental em seus programas internos”, diz a executiva. O banco também é forte em relação à mobilidade: a Torre Santander, em São Paulo, oferece bicicletário com noventa vagas, vestiário com espaço para alongamento e armários, desenvolveu um programa de carona para os funcionários, que passam a ter vaga no estacionamento com preço subsidiado, e instituiu o horário flexível, para evitar entrada e saída nos horários de pico.

Karine também seleciona as iniciativas que podem receber apoio do banco e coordena a gestão interna e sustentável dos recursos, como a redução de consumo de água, luz e papel. Para ela, grandes empresas podem ser geradoras de grandes mudanças, com impactos positivos para toda a população. “O investimento em energia renovável, uma das frentes do nosso trabalho, mostra que este é um negócio possível e, inclusive, muito rentável”.

Alessandra Luglio

Para ela, somos todos parte de um ecossistema harmonioso, impactado fortemente pelos hábitos alimentares.

O caminho convencional da nutrição nunca agradou Alessandra. “Jovens querendo ganhar músculos e mulheres obcecadas em emagrecer. Por muito tempo, os nutricionistas focavam apenas em objetivos estéticos”, ela observa. Em 1996, recém-formada em Nutrição pela Universidade de São Paulo, ela queria saber de onde vinha a comida, por que o vegetarianismo não era estimulado e quais eram os impactos ambientais das escolhas alimentares. Contribuía para isso a sua história de vida.

Alessandra cresceu indo toda sexta-feira para o sítio da família, no interior de São Paulo. “Vivia perto dos animais, cuidando da horta, fazendo compostagem e separação do lixo. Minha mãe sempre foi uma ecologista intuitiva e eu absorvi esses valores”.

Vegana e inconformada com o sofrimento animal e o impacto da alimentação carnívora, ela começou a pesquisar a teia de equilíbrio entre o homem e a natureza. “A produção de energia animal (carne, leite e ovos) emite mais CO2 do que todos os meios de transportes juntos”. As causas envolvem a necessidade do imenso espaço para pastagem e para produzir soja e milho para a pecuária industrial, à base de uso massivo de agrotóxicos. “Isso está devastando todos os biomas. E tudo para produzir o que a gente não precisa comer. Porque a gente vive sem, não é uma necessidade”, lembra a nutricionista, que também é palestrante e tem um blog no Estadão.

Diretora do departamento de nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira, Alessandra aponta três razões para escolher o veganismo. A primeira é os animais. “Não é racional ficar cego à brutalidade com que eles são tratados na pecuária industrial”. A segunda diz respeito ao meio ambiente, uma vez que a escolha de fontes de origem animal é a que mais destrói a natureza. O terceiro ponto é a saúde. Vários estudos mostram que a redução de alimentos de origem animal pode evitar doenças como câncer e diabetes. “No Uruguai e no Rio Grande do Sul, onde as pessoas consomem muita carne, há as maiores incidências de câncer de intestino e de próstata”.

Chiara Gadaleta

Antecipadora de tendências, Chiara Gadaleta percebeu o descompasso entre a indústria da moda e o que o planeta precisa e criou um projeto inovador.

Primeiro era preciso provocar questionamentos e colocar luz no cenário da moda, da beleza e do design: setores que, no início do século 21, ainda se mostravam distantes de discussões ambientais e sociais. “De que moda precisamos? Qual o design que representa os nossos tempos? Com certeza, não aquele que destrói o meio ambiente e o bem-estar social”, diz Chiara. Depois, era preciso engajar pessoas com essa mesma preocupação: transformar a moda em um setor sustentável, consciente e socialmente responsável. Foi o que Chiara Gadaleta, ex-modelo, diretora criativa e hoje empreendedora, fez com o seu projeto ECOERA, fundado em 2007.

Desde que começou o ECOERA, Chiara faz muito trabalho de campo em vilarejos remotos, inclusive na Amazônia, com o objetivo de capacitar as comunidades, colocar luz nos projetos sociais e colaborar para um mercado mais competitivo, valorizando a cultura local e os biomas brasileiros.

Em 2011, lançou a primeira semana de moda sustentável no Brasil com desfiles e oficinas de moda, alavancando marcas que fomentam esse mercado. Em 2015 veio o Prêmio ECOERA, que discute metas para o futuro e destaca empresas que promovem a diversidade, a sustentabilidade e a inovação. “O debate sobre sustentabilidade é integrativo, as pessoas estão abertas para entender as alternativas e a moda é a ferramenta dessa comunicação.

Práticas como economia circular, reaproveitamento e upcycling se mostram cada vez mais viáveis”, diz Chiara, que hoje apresenta um reality show sobre consumo consciente no Discovery e no dia a dia está à frente de uma equipe de especialistas que colaboram com as empresas dispostas a uma jornada cada vez mais sustentável.

Marcia Hirota

Nascida em Mogi das Cruzes (SP), área com quase sete mil hectares de floresta, Marcia Hirota luta pela recuperação da Mata Atlântica, que abrange 15% do território brasileiro.

Diretora executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Marcia Hirota chama a atwenção para a preservação ambiental como algo que afeta a rotina nas cidades e diz respeito a todos nós. A missão de seu trabalho é inspirar a relação das pessoas com o meio ambiente no cotidiano, para que possamos entender que a água e o ar limpo, e até mesmo o bem-estar físico e psicológico, têm a ver com reflorestamento.

“São os serviços ambientais, que temos acesso apenas com o cuidado e a recuperação da natureza; são nossos parques e rios; é a floresta que está presente nas nossas vidas e garante água e ar de boa qualidade”, diz Marcia. Afinal, florestas preservadas contribuem para a purificação do ar, a regulação do clima, a proteção do solo – ajudam a evitar deslizamentos de terra – e protegem rios e nascentes, favorecendo o abastecimento de água nas cidades.

A SOS Mata Atlântica busca o engajamento da população para pressionar políticas públicas ambientais, além de produzir conteúdo importante para alertar e gerar mudanças sobre realidades alarmantes.

Uma das florestas mais ricas em diversidade de espécies e ameaçadas do planeta, a Mata Atlântica conta hoje com apenas 12,4% da mata original no Brasil. Mas desde 1986, quando foi fundada, a instituição mostra que é possível fazer diferente. “Com a ajuda de nossos parceiros e patrocinadores plantamos mais de 40 milhões de árvores nativas, restaurando uma área de 23 mil hectares, equivalente ao tamanho da cidade de Recife”, diz Marcia, referindo-se ao último relatório de atividades da ONG.

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